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PCC/CV Terroristas: Instrumentalização Política no Brasil

A designação de PCC e CV como terroristas pelos EUA vira arma eleitoral no Brasil. Analisamos como a instrumentalização política fragiliza a segurança e o debate público, exigindo veracidade e humildade dos líderes.

🟢 Análise

Quando o telhado da casa do vizinho pega fogo, a prudência manda que se ajude a apagar o incêndio, não que se aproveite a fumaça para atacar o adversário político no próprio quintal. A recente designação, pelos Estados Unidos, do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras é um ato de gravidade intrínseca. Contudo, no Brasil, essa medida rapidamente se metamorfoseou em munição política, revelando a triste sina de temas sérios serem tragados pela voracidade eleitoral.

Os fatos são claros: o governo americano rotulou duas das maiores e mais violentas facções criminosas brasileiras como FTOs. Em Washington, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, não hesitou em reivindicar a paternidade política da decisão após encontros com Donald Trump e seu círculo. Em resposta, o governo brasileiro, em nota, criticou a ação de “atores domésticos que pediam a adoção da medida”, numa clara referência à família Bolsonaro, sugerindo interferência eleitoral e deslealdade de “falsos patriotas” que estariam “envolvidos com o crime organizado” – uma alusão à controvérsia financeira envolvendo o senador. Todo esse cenário se desenrola às vésperas de uma eleição geral e em meio a delicadas negociações comerciais sobre tarifas entre os dois países.

Não se pode ignorar a possibilidade, apontada pelas objeções, de que a decisão americana seja uma medida legítima de segurança nacional. O CV e o PCC não são meros delinquentes de rua; são complexas estruturas transnacionais, com ramificações em tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro que efetivamente ameaçam a segurança global. Seria ingenuidade, e mesmo irresponsabilidade, subestimar a capacidade de terror e desestabilização dessas organizações. A unilateralidade da designação, sem uma consulta transparente sobre os critérios que a transformaram de facção criminosa em terrorista, é uma lacuna que merece escrutínio, mas não invalida, por si só, a gravidade da ameaça.

O problema central, portanto, não reside na existência da ameaça ou na capacidade soberana de uma nação de defender-se, mas na instrumentalização dessa realidade. Ambos os lados do espectro político brasileiro, cada qual à sua maneira, transformam a seriedade de um decreto antiterrorista em mero adereço de campanha. De um lado, tenta-se capitalizar politicamente sobre uma medida externa; de outro, desqualifica-se a ação inteira como “interferência” e “traição”, usando o evento para atacar adversários internos. A veracidade dos fatos, nesse nevoeiro de interesses, é a primeira vítima. As verdadeiras intenções por trás da visita de um lado e da nota oficial de outro se obscurecem em um jogo de espelhos que pouco contribui para a segurança da população.

A Doutrina Social da Igreja, ao debater o papel do Estado, sublinha sua finalidade de promover a ordem moral pública e o bem comum, garantindo a paz e a segurança dos cidadãos. O que assistimos, contudo, é a subversão dessa finalidade. A classe política, em sua ânsia por vantagem eleitoral, revela uma falta clamorosa de humildade diante da realidade objetiva e do sofrimento de um povo atormentado pelo crime. O cidadão comum, o “povo” tão distinto da “massa” manipulável de que falava Pio XII, é deixado à mercê de facções que, de fato, aterrorizam, enquanto seus líderes jogam xadrez com suas vidas. É um espetáculo onde a segurança nacional se torna um palco para vaidades e revanchismos, e a cooperação internacional, uma moeda de troca.

O custo real dessa pantomima política é altíssimo. Ele mina a confiança nas instituições, fragiliza a capacidade do Estado de combater o crime organizado de forma séria e coordenada, e distrai a atenção dos desafios reais que essas facções representam. Não é com gritos de “interferência” ou brados de “salvador da pátria” que se desmantelam impérios criminosos, mas com trabalho árduo, coordenação inteligente entre nações, transparência nas ações e, acima de tudo, uma inabalável devoção à justiça para com todos os cidadãos. A verdadeira soberania de uma nação se manifesta não na indignação retórica contra ações externas, mas na sua capacidade efetiva de garantir a segurança e a integridade de sua gente.

A res publica, a coisa pública, não pode ser reduzida a um bem privado a ser disputado em leilão de retórica. Exige a veracidade do diagnóstico e a humildade da ação para que a justiça prevaleça sobre os palcos da política.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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