Às vésperas de mais um pleito presidencial, a Colômbia se vê encurralada não apenas entre siglas partidárias, mas entre a memória viva de quase um século de conflito e a promessa incerta de um futuro em paz. Neste domingo, mais de 41 milhões de colombianos irão às urnas com a sombra de uma violência persistente, que já ceifou inúmeras vidas e desfigurou o tecido social do país desde a década de 1940. A eleição polarizada, com Iván Cepeda (esquerda) liderando nas pesquisas e enfrentando Abelardo de la Espriella (ultradireita) e Paloma Valencia (direita tradicional), evidencia uma nação em busca de um norte em meio ao vendaval.
O governo atual, de Gustavo Petro, inaugurou uma gestão de esquerda com a bandeira da “paz total”, mas a realidade é teimosa: criminosos, dissidentes das Farc, paramilitares e narcotraficantes continuam a semear o terror. É nesse solo de insegurança que as propostas de “mão dura” da ultradireita, emulando figuras como Milei e Bukele, ganham tração. Afirmar que a possível ascensão dessa direita constitui um “risco para a própria democracia” ou um “grande retrocesso” para o país, sem antes perscrutar as causas profundas desse apelo, é um reducionismo que trai a veracidade dos fatos. A demanda por segurança, em um povo que por décadas viveu sob a mira da violência, não é meramente um capricho ideológico; é um clamor legítimo e um direito elementar.
O Magistério da Igreja, ecoando a reta razão e o princípio do bem da cidade, ensina que a primeira das liberdades é a de viver em segurança e em ordem. Sem esta, toda e qualquer outra agenda — social, econômica ou mesmo de paz — se torna uma abstração vazia. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, alertava para o risco de as elites intelectuais e políticas desconsiderarem as aspirações concretas do homem comum, que busca antes de tudo a estabilidade de sua família e a integridade de sua vida e propriedade. Quando o Estado, sob qualquer matiz ideológico, falha em seu dever primário de garantir a ordem moral pública, abre-se uma chaga que a retórica não consegue sarar. A liberdade ordenada, fundamento de uma sociedade justa, exige que a autoridade legítima não hesite em usar os meios necessários, lícitos e morais para defender os cidadãos.
A Colômbia precisa, antes de tudo, de um exame de consciência coletivo sobre a real efetividade de suas políticas. O acordo de paz de 2016, embora um marco, não pôs fim à miséria da violência. As vozes que agora clamam por abordagens mais firmes não podem ser simplesmente rotuladas ou desqualificadas por sua inclinação política. É preciso honestidade para questionar se a estratégia da “paz total” está de fato entregando resultados mensuráveis ou se, em sua ânsia por conciliação, acaba por relativizar a indispensável justiça, que exige a punição do malfeitor e a proteção do inocente. A veracidade impõe que se olhe para os números da criminalidade, para o sofrimento dos deslocados e para a impunidade que ainda grassa, antes de tecer juízos sobre a legitimidade do voto popular.
O verdadeiro desafio é o de edificar uma ordem social que seja justa, e não apenas discursiva. A justiça requer que o Estado exerça sua soberania com fortaleza, assegurando a todos os cidadãos o direito fundamental à segurança. Uma paz duradoura não é fruto da negociação infinita com quem desrespeita a vida e a lei, mas da imposição firme da ordem e da restauração da autoridade do direito. Os candidatos colombianos, sejam de esquerda ou de direita, devem apresentar propostas que superem o mero jogo de etiquetas ideológicas e que se voltem para a construção paciente de uma comunidade política onde a lei seja respeitada e o cidadão, protegido.
O caminho para a paz não se traça com tinta ideológica, mas com a pedra da justiça e a argamassa da ordem, edificando, passo a passo, o verdadeiro lar para o povo colombiano.
Fonte original: CartaCapital
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.