Quando a palavra se transforma em picada, a dignidade humana, por vezes, encontra na afronta a matéria-prima de um estranho desafio. Que um chefe de justiça, guardião da ordem, possa reduzir a juventude desempregada a “baratas” é um sintoma da podridão que se instala no corpo social. Mas a resposta dos jovens indianos, ao abraçarem o inseto como símbolo de um “Cockroach Janta Party” (CJP), revela a força paradoxal da sátira, embora não sem as fragilidades da espuma. O escárnio da autoridade gerou um protesto digital de milhões, um grito pela justiça social em terras onde o desemprego, especialmente entre os graduados, devora o futuro de quase 40% da nova geração.
É inegável a urgência das preocupações que o CJP, ainda que informal, vocaliza. A carência de emprego, a corrupção endêmica e a asfixia das vozes dissonantes sob o peso de conglomerados midiáticos alinhados ao poder estabelecido são chagas que corroem a vida comum. A Igreja, há muito, clama pela justiça social, pelo salário digno, pela propriedade com função social, conforme nos ensinou Leão XIII, e pela vitalidade dos corpos intermediários que evitem a massificação e o gigantismo estatal, como Pio XI sublinhou. Quando os jovens sentem que os canais tradicionais se fecham, ou que seus líderes os tratam com desprezo, a eclosão de movimentos, mesmo os mais inusitados, não deve surpreender, mas ser um alerta grave para a necessidade de escuta e de ação efetiva.
Contudo, a autenticidade de um movimento não se mede apenas pela virilidade dos seus números nas redes sociais. Há uma distinção tomista entre a potência e o ato, e uma diferença fundamental, como recordava Pio XII, entre “povo” e “massa”. O povo se organiza, tem consciência de si, busca o bem comum através de estruturas duradouras. A massa, por outro lado, é suscetível à manipulação, à superficialidade e à efemeridade das tendências. A ascensão meteórica de um partido de “baratas”, liderado por um estrategista de comunicação política com laços anteriores a outros partidos, levanta questões incômodas: é um fermento genuíno vindo das raízes do sofrimento, ou uma espuma de protesto que pode se dissipar tão rapidamente quanto surgiu?
A promessa de “cancelar as licenças de todas as empresas de mídia de propriedade de Ambani e Adani” ecoa como um brado populista, mas carece de sustentação no que tange à reta ordem da justiça e à liberdade responsável. A pluralidade de vozes não se garante pela anulação de propriedade legítima, mesmo que concentrada, mas por regulamentações justas, por incentivo à mídia independente e pela fortaleza cívica de um público capaz de discernir. Além disso, a facilidade com que a conta original do CJP foi censurada na plataforma X, mediante uma “demanda legal”, expõe a fragilidade intrínseca de movimentos que depositam sua existência em plataformas digitais controladas por terceiros, sujeitos à arbitragem do poder estatal ou corporativo.
O ativismo que verdadeiramente edifica requer mais do que memes e apropriação de insultos. Exige laboriosidade, a formação de quadros, a paciência na construção de estruturas, a caridade para com os mais vulneráveis e a magnanimidade para propor soluções concretas, complexas e de longo prazo. Chesterton, em sua sanidade mordaz, riria do absurdo de um sistema que chama seus jovens de baratas, mas também nos advertiria sobre a ilusão de que a sanidade da revolta se sustentaria apenas na loucura lógica de um viral. A verdadeira fortaleza dos jovens não reside em rir de seu próprio rótulo, mas em construir, pedra por pedra, uma alternativa que o poder não possa simplesmente deletar ou ignorar.
A Índia, com sua vasta juventude, anseia por uma ordem justa. Essa ordem não brotará do insulto do poder nem da sátira que não se traduz em substância política. Somente um compromisso com o trabalho árduo, com a busca intransigente da verdade e com a edificação de instituições orgânicas, capazes de resistir ao tempo e à pressão, poderá fazer com que os gritos da frustração se tornem a sinfonia de um futuro digno.
Fonte original: R7 Notícias
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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