O Rio das Pérolas, em Cantão, há séculos foi a artéria vital que ligou a China ao mundo exterior, por onde os portugueses aportaram e a civilização ocidental tateou seus primeiros contatos com o Império do Meio. Hoje, Cantão, com suas placas verdes para carros elétricos e o burburinho de uma metrópole que pulsa ao ritmo de baterias e painéis solares, é novamente um portal. Mas não mais um portal de seda e especiarias, e sim um palco onde se decide o futuro da energia, com a China se posicionando como a vanguarda de um “eletroestado” global. É um espetáculo de engenhosidade e escala que hipnotiza, promete independência e parece reescrever a geopolítica. Contudo, sob o verniz cintilante da novidade, vislumbra-se um padrão antigo, um deslocamento de encargos que exige um escrutínio mais detido.
Não há como ignorar a impressionante guinada chinesa nem os motivos geopolíticos que a impulsionam. A importação de 70% do petróleo consumido, somada aos recentes conflitos que fecharam o Estreito de Ormuz e atingiram países como Venezuela e Irã, demonstra uma vulnerabilidade estratégica real. A capacidade de eletrificar sua economia, de ter 30 milhões de carros elétricos e de exportar turbinas eólicas e painéis solares em massa, é um feito notável de organização e planejamento. Os impactos já se veem em nações como o Paquistão, que saltou de 3% para 30% de energia solar em poucos anos. Esta não é uma mera corrida tecnológica, é uma redefinição audaciosa de poder. O problema surge quando esta redefinição promete uma libertação que, na verdade, é apenas uma troca de cadeias.
A verdadeira questão, que a virtude da veracidade nos impõe, não é se a China está investindo pesado em carros elétricos, mas de onde vem a energia que os move. É um fato incontornável que mais de 60% da energia chinesa ainda provém de combustíveis fósseis, e a queima de carvão, a fonte mais poluente, continua a aumentar. Mandar as usinas de carvão “para longe das cidades” não resolve o problema da poluição; apenas o empurra para as periferias ou o dilui na atmosfera global, transferindo a pegada de carbono para a geração de eletricidade. O carro elétrico, sob essa ótica, deixa de ser um símbolo de pureza ambiental para se tornar um mero veículo que transporta sua cota de carbono da estrada para a chaminé da usina. A balança ambiental global não se equilibra com essa troca.
A ambição de se tornar o “eletroestado” global, embora compreensível em termos de segurança nacional, revela uma nova e complexa assimetria de poder. Se antes a dependência era do petróleo alheio, agora se torna do lítio, cobalto e terras raras, minerais críticos cujas cadeias de suprimentos a China domina largamente. A mineração desses recursos tem seus próprios custos ambientais e sociais, frequentemente em países com governança frágil, replicando padrões extrativistas que já conhecemos. A justiça social e ambiental exige que não se construa um futuro “verde” sobre a exploração de terras e povos, ou sobre a mera transferência de externalidades negativas para nações menos desenvolvidas. É uma forma contemporânea de massificação, na qual o povo se torna massa a serviço de uma estratégia estatal, como Pio XII nos advertia.
A sanidade reside não em apenas trocar de combustível, mas em reordenar a própria economia global à luz do bem integral. A aceleração da eletrificação chinesa impactará profundamente países exportadores de petróleo, que verão sua principal fonte de renda minguar sem, muitas vezes, terem alternativas viáveis. Uma transição verdadeiramente justa e em espírito de solidariedade exigiria mecanismos para mitigar esses choques e garantir que a dignidade da pessoa humana seja preservada em todas as etapas, desde a extração dos minerais até o descarte das baterias. A busca por uma autonomia nacional não pode se sobrepor aos imperativos de uma ordem moral pública global que considere o impacto em todas as nações e no ecossistema planetário.
A grandiosidade da China em sua jornada de descarbonização é um fato que merece atenção, mas não pode nos cegar para os seus paradoxos mais profundos. A “transformação verde” corre o risco de ser uma sofisticada estratégia de “troca de dependência”, um deslocamento do ônus ambiental e uma nova configuração da hegemonia tecnológica, em vez de uma genuína reordenação de bens e de deveres. A verdadeira luz de um futuro sustentável não vem do brilho solitário de uma placa verde, mas da transparente contabilidade de cada custo humano e ecológico que a ilumina.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.