A política, muitas vezes, assemelha-se a um grande salão de máscaras, onde as identidades são fluidas e as intenções, ora sussurradas, ora disfarçadas, obscurecem o real propósito do encontro. No Ceará, o palco eleitoral de 2026 desenha um espetáculo onde a indefinição de papéis e a troca de figurinos ameaçam não só a clareza da peça, mas a própria veracidade da representação política.
A prolongada hesitação de Ciro Gomes sobre sua candidatura ao governo é o cerne desta encenação. A dança de “teria comunicado” a aliados e a promessa de “definirá em maio” não se configura como cálculo estratégico perspicaz, mas como uma cortina de fumaça que impede a exposição de um plano de Estado. Este tipo de ambiguidade, que transforma o processo eleitoral num jogo de adivinhação, é uma afronta à justiça devida ao eleitorado, que precisa de plataformas e compromissos claros para um discernimento adequado.
A cena ganha contornos de um paradoxo particularmente mordaz quando Michelle Bolsonaro critica o possível apoio do PL a Ciro Gomes, e André Fernandes, líder estadual da sigla, suspende as negociações “por enquanto”. Aqui se revela a loucura lógica de um pragmatismo que, em nome de uma hipotética vitória, está disposto a esvaziar a própria identidade e o conteúdo programático de um partido. Como pode um agrupamento político demandar fidelidade a princípios quando ele mesmo os transaciona em nome de alianças que contradizem seu discurso de base?
Enquanto os grandes nomes se emaranham nesta teia de indecisões, outras candidaturas emergem, algumas com trajetórias de votos modestos, mas que ao menos oferecem um alinhamento programático mais nítido, ainda que restrito. São as vozes que, de uma forma ou de outra, recusam o baile de máscaras, mesmo que suas bandeiras tremulem em ventos menos favoráveis. A polarização do debate, que poderia forçar a um claro posicionamento, esmaece diante de arranjos que diluem qualquer identidade substantiva.
O que se observa é uma perigosa mercantilização da política, onde os princípios são bens negociáveis e as alianças, pactos sem fundamento ideológico, feitos sob o cálculo frio do poder. Essa dinâmica desvia o debate público de questões cruciais de gestão e políticas públicas para o estado, focando-o em meras especulações de bastidores. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia sobre os perigos de um Estado que se torna um fim em si mesmo, descolado de seu serviço ao povo e da reta ordenação para o bem comum. A confusão de candidaturas e propostas, sem um projeto claro de governo, impede que a máquina estatal seja vista como um instrumento de serviço e a transforma numa presa a ser conquistada a qualquer custo.
A fragmentação das forças de oposição, um dos temores legítimos do cenário atual, decorre não apenas de vaidades individuais, mas desta ausência de veracidade e compromisso com o conteúdo programático. Se os corpos intermediários da sociedade — dentre os quais se inserem os partidos políticos em sua função de representação — perdem a capacidade de expressar alternativas coerentes e consistentes, a vitalidade da democracia é comprometida. A incapacidade de formar uma frente coesa não é meramente tática; reflete incompatibilidades profundas entre os discursos e as práticas, abrindo caminho para que o poder estabelecido permaneça sem um contraponto robusto e legítimo.
A política, quando despojada de princípios e da busca honesta do bem comum, transforma-se em mero palco de egos e ambições, condenando o povo a aplaudir uma peça sem enredo, na qual o verdadeiro drama – o da vida da cidade – fica silenciado nos bastidores.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.