Um “Programa de Governo Participativo” é, em seu ideal, um canteiro de obras da polis, onde os alicerces da comunidade são erguidos pela voz do povo e pela mão laboriosa do poder público. Mas quando tal programa, concebido para a “escuta popular”, se estende até as vésperas de uma eleição e serve de palco para a mobilização política, a fachada de participação ameaça desabar sobre os fundamentos da honestidade cívica. O que se desenrola em Feira de Santana, com a reunião de mais de 20 prefeitos, deputados e lideranças em nome do PGP 2026, oferece um caso exemplar dessa tensão.
Não se nega a validade de um governo que busca ouvir os anseios de sua gente, nem a necessidade premente de investimentos em infraestrutura social, como um novo hospital de câncer. A boa política, aliás, *exige* que o gestor conheça o terreno que pisa e as carências reais do povo. Contudo, a virtude pública não reside apenas no que se faz, mas em *como* e *com que intenção* se faz. Quando a “escuta” transforma-se em desfile de prefeitos e a “participação” serve para “enviar recados à oposição”, a essência do bem da cidade é subvertida, e o que era para ser diálogo vira encenação.
A verdadeira participação pressupõe a humildade do poder em se submeter à voz que vem de baixo, respeitando os corpos intermediários da sociedade. É a subsidiariedade que ensina que o governo central deve apoiar, não suplantar, a autonomia e as iniciativas locais, como seria o caso de conselhos escola-família-comunidade atuando em suas esferas próprias. Ao invés disso, o que se observa é uma engrenagem que, sob o manto de uma nobre intenção, coopta as forças vivas do município para um projeto que serve, antes de tudo, à perpetuação de uma base política. O anúncio de obras cruciais, em vez de ser fruto de um planejamento técnico transparente, parece sincronizado com o calendário eleitoral, transformando o benefício público em moeda de troca ou em exibição de força. É a crítica de Pio XI à estatolatria, que vê o Estado absorver em si as iniciativas da sociedade, mas aqui revestida de um verniz “participativo”.
Há uma espécie de loucura lógica que inverte o sentido das coisas, onde o que se apresenta como abertura ao diálogo é, na prática, uma centralização do palco político. O Programa de Governo Participativo, ao estender-se “até as eleições de 2026” e se concentrar em “demonstrar capilaridade e unidade da base”, parece mais uma campanha permanente do que um espaço genuíno de construção coletiva. A linguagem “carregada” da própria fonte, que fala em “recado de força” e “disputa pela influência regional”, denuncia a intenção subjacente: não a busca desinteressada pelo bem da cidade, mas a luta pelo poder disfarçada de serviço público.
Tal encenação da participação fragiliza os pilares da responsabilidade e da honestidade na vida pública. Os cidadãos-contribuintes, cujos recursos financiam a máquina, veem-se envolvidos em uma charada onde a intenção declarada difere da ação prática. A oposição política tem seu espaço de debate minado pela utilização do aparato estatal como plataforma de campanha, numa desvantagem assimétrica. E os próprios gestores municipais, muitas vezes dependentes das verbas estaduais, podem sentir-se compelidos a endossar um espetáculo que desvirtua a essência da autonomia federativa e do pluralismo político. A justiça social não se faz com simulacros, mas com a retidão de propósito e a integridade dos meios.
O desafio de construir uma comunidade política sólida não reside em erguer cenários grandiosos para a foto, mas em assentar os alicerces em princípios firmes. Um plano de governo participativo que aspira à perenidade não pode se confundir com a areia movediça da pré-campanha. A verdadeira participação exige a humildade de quem governa e a responsabilidade de quem propõe, para que o edifício público seja construído com a verdade do que se vê e a solidez do que se faz, e não apenas com a ilusão de uma fachada bem pintada.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.