Se o noticiário dos últimos dias fosse um boletim de saúde, a Bahia estaria em febre alta. Das queixas de motoristas de aplicativo em um aeroporto entregue pela Vinci, passando pela malha aérea encolhendo em Vitória da Conquista, até a profusão de contratos suspeitos, obras abandonadas e pagamentos emergenciais que cheiram a conveniência em São Desidério, Cotegipe, Amargosa, Ruy Barbosa, Monte Santo e Tapiramutá, a imagem que se desenha é a de uma vida pública sob forte estresse e com pouca medicação preventiva. Não se trata de uma ou outra mazela isolada, mas de um padrão que insiste em se repetir, desafiando a razão e, mais grave, a virtude cívica.
A persistência de acusações de fraude, nepotismo e desvio de recursos em tantos níveis municipais não pode ser ignorada como mero acaso ou exceção à regra. Ao contrário, sinaliza uma profunda fragilidade na gestão dos fundos públicos e uma corrosão da ética administrativa que afeta diretamente a justiça devida aos cidadãos. Quando obras essenciais como creches ficam 95% concluídas e abandonadas em Santa Bárbara, ou o transporte escolar para o IFBA opera em condições precárias em Monte Santo, a população não está apenas perdendo dinheiro; está sendo privada da dignidade e das oportunidades mais básicas. Este é o impacto real da má gestão: a vida comum é empobrecida e a esperança de um futuro melhor, cerceada.
O ensinamento perene da Igreja, especialmente através de Pio XI, sobre a subsidiariedade, adverte-nos para o perigo de concentrar poder, mas também para a responsabilidade intransferível da gestão local. A autonomia municipal, pilar do desenvolvimento local, não pode ser um escudo para a irresponsabilidade, nem uma licença para uma espécie de estatolatria em miniatura, onde o ente público se serve a si mesmo em vez de servir aos que dele dependem. É um escárnio gastar milhões em festejos juninos, por vezes ignorando tetos recomendados, com comissões de 20% sobre patrocínios em cidades como Amargosa, enquanto estruturas básicas de educação e saúde se desmantelam. O que se celebra, afinal, quando a casa comum está em ruínas?
Nesse cenário, a atuação dos mecanismos de controle, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas dos Municípios, embora visível em suas investigações, parece nadar contra uma correnteza que nunca cessa. A profusão de inquéritos, denúncias e liminares – ou o indeferimento delas – sugere que o sistema legal está sempre em modo reativo, correndo atrás do prejuízo, mas com pouca capacidade de inibir o mal pela raiz. A pergunta incômoda não é se há fiscalização, mas qual a sua eficácia real em termos de recuperação de recursos, sanções efetivas e, sobretudo, prevenção. Como Chesterton bem observaria, é a sanidade que se perde quando a lógica dos gastos se inverte: celebrações efêmeras à custa de obras perenes.
A tentação de reduzir tudo a embates políticos ou à dinâmica pré-eleitoral é um perigoso reducionismo que ignora a dimensão moral do problema. A ausência de deputados em votações cruciais na ALBA, justificada pelo “foco eleitoral nos municípios”, revela uma inversão de prioridades que atenta contra a veracidade do mandato público. A lealdade primária deve ser à comunidade, ao bem do povo, e não à estratégia de campanha. A transparência nos editais, a clareza nas planilhas de gastos, a accountability radical nos contratos de desempenho e a responsabilidade sobre a continuidade institucional são mais do que exigências burocráticas; são expressões de uma governança que reconhece a dignidade do trabalho e a sacralidade dos recursos públicos.
O que se exige, em suma, não é uma mágica administrativa, mas a redescoberta de virtudes perenes. A laboriosidade na gestão dos recursos, a temperança no uso do poder, a honestidade na condução dos negócios públicos. Não basta apenas que as denúncias existam; é preciso que as consequências sejam tão claras e inevitáveis quanto a própria lei moral. A restauração da vida pública passa não pela mágica de novos orçamentos, mas pela redescoberta da honra no serviço, da transparência no gasto e da justiça como alicerce inegociável da convivência humana.
Fonte original: Portal A TARDE
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.