A cena política cearense se desenha não como um campo de propostas claras e princípios definidos, mas como um palco envolto em névoa, onde as cortinas se abrem apenas para a dança estratégica dos bastidores. Três meses nos separam das convenções partidárias, e o que deveria ser um tempo de exposição transparente de projetos e visões para o futuro do estado, converte-se em um intrincado jogo de sombras, onde a verdade das intenções é a primeira a ser sacrificada no altar da viabilidade eleitoral.
A prolongada ambiguidade de figuras centrais, como Camilo Santana e Ciro Gomes, serve a um propósito tático, mas desatende à exigência fundamental da veracidade pública. Quando um ex-ministro se desincompatibiliza sem declarar claramente suas intenções, e um ex-governador flutua entre afirmações de “não concorreria se tivesse juízo” e a prontidão para “cumprir a missão”, o eleitor é relegado ao papel de mero espectador de um enigma. A política, é certo, envolve articulação e negociação, mas esta não pode se dar à custa da honestidade intelectual devida ao povo. A estratégia de manter o suspense, de explorar lacunas e adiar definições, instrumentaliza a expectativa do cidadão, tratando-o não como partícipe ativo, mas como peça passiva em um tabuleiro de xadrez montado para poucos.
Este cenário de indefinição calculada revela uma inversão perigosa na ordem dos bens. O que deveria ser primário – o plano de governo, as prioridades claras, as soluções para os desafios concretos do Ceará – torna-se secundário em face das manobras partidárias e da busca pela “chapa perfeita”. A desincompatibilização de um cargo de Ministro da Educação, por exemplo, embora legalmente prevista, adquire uma dimensão ética quando a precede um silêncio eloquente, fazendo parecer que a função pública foi um trampolim para ambições futuras, e não um fim em si mesmo. A autoridade, para ser legítima no sentido mais profundo, depende da confiança que se constrói sobre a clareza e a coerência entre o que se diz e o que se faz.
A constante realocação de figuras proeminentes entre partidos, como o retorno de Ciro Gomes ao PSDB após uma década no PDT, também suscita interrogações sobre a lealdade ideológica e o pragmatismo excessivo. Tais movimentos, quando desacompanhados de uma explicação substantiva sobre a mudança de princípios ou programas, reforçam a impressão de que as siglas são meros veículos para projetos pessoais, e não comunidades de pensamento e ação empenhadas na edificação da vida comum. Os partidos menores, por sua vez, com suas candidaturas já anunciadas, lutam por um espaço que a atenção da mídia e os recursos dos grandes players lhes negam, em uma assimetria de poder que o sistema eleitoral, por si só, não corrige.
O juízo cristão sobre a vida pública, ancorado em Leão XIII e Pio XII, insiste que a ordem política deve servir ao povo, e não reduzi-lo a uma massa a ser manipulada. A liberdade ordenada do cidadão se manifesta na capacidade de discernir e escolher com base em informações verdadeiras e propostas concretas. A falta de veracidade e a persistência da ambiguidade transformam a eleição em um exercício de adivinhação, onde a gestão da incerteza por parte dos caciques políticos substitui a apresentação de visões para o futuro. Isso atenta contra a justiça, que demanda um campo de disputa equitativo onde as ideias possam florescer e ser avaliadas.
Para que a política não se esvazie em tática e a democracia não se reduza a um espetáculo de egos, é preciso que os que aspiram ao governo do Ceará ofereçam mais do que retóricas vazias ou a promessa de “entregas à população”. É indispensável que apresentem seus planos com honestidade, justifiquem suas escolhas e respeitem o tempo do eleitor, que precisa de clareza para discernir qual projeto se alinha verdadeiramente ao bem da cidade. A experiência é um valor, sim, mas deve ser posta a serviço da inovação e da superação de desafios, não da repetição de um jogo onde as regras não são claras e os objetivos, nebulosos.
O Ceará merece mais do que a encenação de um suspense eleitoral. A verdadeira força de uma candidatura não reside em sua capacidade de manejar o tempo e a dúvida, mas na solidez de seu compromisso com a verdade e na clareza de sua visão. Somente assim a eleição cumprirá seu papel de elevar o debate público e edificar a ordem justa que a todos beneficia.
Fonte original: O POVO Mais
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