A ascensão profissional, em sua essência mais pura, deveria ser um caminho de mérito e serviço, uma escada construída com honestidade, competência e dedicação ao ofício. Contudo, uma nova e perturbadora pesquisa sobre as ditaduras argentinas das décadas de 1970 e 1980 sugere que essa mesma escada pode, em condições perversas, tornar-se um mecanismo para atos atrozes. O estudo revela que, muitas vezes, não são apenas os ideólogos fanáticos ou os sádicos patológicos que executam o “trabalho sujo” dos regimes, mas indivíduos medianos, sob pressão de carreira, em busca de uma promoção, de um salário melhor, de uma aposentadoria mais segura. A vida burocrática, em vez de um dique contra o arbítrio, pode ser seu canal mais eficaz.
Os pesquisadores Adam Scharpf e Christian Glassel, debruçando-se sobre dados militares da Argentina que acompanham promoções e desempenhos desde o século XIX, descobriram um padrão desolador. Oficiais com histórico acadêmico mediano ou fraco eram desproporcionalmente atraídos para o Batalhão de Inteligência 601, a polícia secreta notória por torturas e assassinatos. O que oferecia esse desvio sombrio? Uma “segunda escada” para o sucesso profissional, contornando a meritocracia tradicional do exército. Aqueles que mais se destacavam na crueldade eram os mais recompensados com promoções e posições de prestígio, retornando, por vezes, ao Exército regular para assumir postos elevados. É um quadro que nos obriga a confrontar a face mais insidiosa da perversão institucional: a de que sistemas de incentivo podem transformar a aspiração mais comum em motor de maldade.
Este não é um fenômeno isolado. A história ecoa essa dinâmica: os Einsatzgruppen nazistas recrutavam indivíduos com “dúvidas de pureza racial” ou registros disciplinares, oferecendo-lhes ascensão em troca de serviço zeloso no extermínio; a NKVD soviética buscava indivíduos com pouca formação, alimentando a competição por prisões. Em autocracias eleitorais modernas, de Viktor Orbán na Hungria a Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela, observam-se mecanismos semelhantes. A nomeação de “fracassados leais” para posições-chave, a coaptação de grupos civis armados em estruturas estatais e a deterioração dos padrões de formação profissional em agências de segurança – como as recentes preocupações com recrutas do ICE nos Estados Unidos sob a potencial administração Trump – parecem replicar, com diferentes graus de intensidade, a mesma lógica. A tese da Antítese é legítima ao nos alertar contra um reducionismo motivacional; a busca por promoção não é a única causa, mas é, inegavelmente, um potente catalisador que se entrelaça com ideologia, medo e desejo de poder.
É aqui que a doutrina social da Igreja e o pensamento tomista lançam luz sobre a chaga. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia para o perigo de um Estado que se torna um fim em si mesmo, exigindo lealdade absoluta e incondicional, capaz de perverter a consciência individual e as instituições. Pio XII, por sua vez, distinguia o “povo”, uma comunidade de pessoas com laços orgânicos e agência moral, da “massa”, um aglomerado de indivíduos atomizados, facilmente manipuláveis e reduzidos a meros instrumentos de um poder despersonalizado. Quando uma burocracia estatal oferece sucesso e segurança em troca da negação da verdade e da justiça, ela não apenas corrompe o indivíduo, mas também degrada o próprio conceito de “povo”, transformando cidadãos em meros cogs de uma máquina de repressão. A justiça é invertida, e a integridade profissional, que deveria ser um pilar da boa ordem, é vendida por um prato de lentilhas.
A observação de Chesterton, em seu paradoxo sobre a sanidade, ajuda a desvelar essa distorção. Ele diria que a verdadeira loucura não está em ver o que não existe, mas em recusar-se a ver o que está escancarado, em normalizar o absurdo moral. A ideia de que o caminho mais curto para a ascensão profissional seja a adesão à crueldade é uma dessas loucuras lógicas que corroem as fundações de uma `ordem justa`. Não se trata apenas de indivíduos perversos, mas de um sistema que perverte a ambição, que esmaga a `fortaleza` daqueles que resistem e que recompensa a `desonestidade` no cumprimento do dever. Onde o mérito é sinônimo de conformidade brutal, a esperança de uma sociedade virtuosa se esvai.
A verdadeira `magnanimidade` cívica e a reta `justiça` exigem não apenas a condenação dos tiranos, mas a desarticulação das engrenagens invisíveis que lhes dão força. A tarefa é árdua: reconstruir a `integridade moral` nas instituições, fortalecer os `corpos intermediários` para oferecer caminhos alternativos de serviço e garantir que a carreira pública, em vez de um atalho para a abjeção, seja um percurso de `honestidade` e serviço genuíno à vida comum. Não se pode combater a sombra sem iluminar o mecanismo que a projeta. A defesa da civilidade começa com a recusa em compactuar com os meios imorais, mesmo quando estes prometem a estrada mais suave.
A lição da história é um aviso sóbrio: quando as estruturas da ascensão se tornam as estruturas do mal, a liberdade da pessoa humana é a primeira a ser escravizada.
Fonte original: InfoMoney
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