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Campo Democrático SC: Unidade Tática ou Visão de Governo?

O Campo Democrático em SC para 2026 agrupa figuras díspares. A união é tática ou um projeto de governo? Exploramos o risco de falha programática e a urgência de clareza pela Doutrina Social.

🟢 Análise

A promessa de uma grande orquestra democrática, com instrumentos de sonoridades tão díspares, pode soar como música aos ouvidos de muitos, especialmente em tempos de cacofonia política. Em Santa Catarina, a articulação do “Campo Democrático” para as eleições de 2026, com a apresentação de pré-candidatos como Gelson Merísio, Angela Albino, Décio Lima e Afrânio Boppré, é apresentada como um gesto de união pela democracia e um esforço para “corrigir o erro” de uma imagem que “não nos representa”. A retórica de “construir pontes, não muros” e a grandeza de “deixar de lado as diferenças” em prol do “combate ao fascismo” ecoa com a urgência de uma conjuntura que exige convergência.

Contudo, é justamente na diversidade anunciada – do histórico mais ao centro de Merísio à forte presença de PT e PSOL – que reside a principal melodia dissonante. A preocupação legítima emerge: será essa uma verdadeira sinfonia de valores e propostas, ou um arranjo meramente tático, onde cada instrumentista, apesar de no mesmo palco, toca sua própria partitura, com a esperança de que a soma dos sons, ainda que incongruente, seja suficiente para vencer a plateia? A união por um “inimigo comum”, embora mobilizadora, arrisca esvaziar o propósito maior de uma agenda de governo que realmente sirva ao bem da cidade.

Para a Doutrina Social da Igreja, a veracidade na ação política não é um mero ornamento, mas o alicerce da confiança pública e da justiça social. Um projeto político, para ser honesto com o povo que busca representar, não pode se furtar à clareza de seu programa. A fusão de perfis ideológicos tão amplos, sem um programa de governo detalhado que concilie visões econômicas e sociais historicamente divergentes, pode desvirtuar o próprio conceito de “campo democrático”. O risco é que o discurso da união se torne um vasto guarda-chuva retórico, onde as verdadeiras divergências programáticas são adiadas ou minimizadas, em detrimento de soluções concretas para a vida dos catarinenses em saúde, educação e emprego.

A justiça, virtude essencial para a ordem social, demanda mais que a denúncia do mal; exige a proposição ativa do bem. Quando Décio Lima fala em “construção sem igual”, e Afrânio Boppré em “inteligência para unir forças”, é preciso perguntar: essa inteligência se traduzirá em um plano de governo que distribua encargos e benefícios de forma equitativa, que fortaleça os corpos intermediários da sociedade e não caia na tentação da estatolatria? Ou será que a presença de uma figura com o histórico de Merísio na cabeça da chapa, por sua capacidade eleitoral, subordinará pautas de justiça social mais profundas defendidas pelos partidos de esquerda, buscando um denominador comum que, ao fim, satisfaz poucos?

Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, poderia questionar a solidez de uma frente que se define primariamente pelo que combate, e não pelo que edifica. A maturidade política não reside em uma unidade que abdica da coerência programática para dialogar com diferentes segmentos, mas em uma unidade que, mesmo diversa, consegue apresentar um horizonte claro, um mapa de rota que não deixe o eleitor à deriva. A promessa de “empoderar as mulheres, não em foto ou em número, mas na construção de um projeto”, feita por Angela Albino, é nobre, mas carece de um referencial programático transparente que a sustente em meio a tantas vozes.

A chapa do “Campo Democrático” tem o dever, portanto, de transcender a mera oposição e a retórica de salvação. Os catarinenses merecem um projeto que não apenas se diga “anti-fascista”, mas que apresente, com inquestionável veracidade e justiça, qual a sua forma de governo, que sistema de valores e quais as propostas econômicas, sociais e culturais serão implementadas. O discernimento do eleitor não se contenta com a ausência de um inimigo; ele busca a presença de um propósito claro e a autenticidade de uma visão.

A verdadeira força de uma coalizão não se mede pela ausência de inimigos, mas pela clareza de seu norte.

Fonte original: ND

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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