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Campinas: Vacinação Gripe Fracassa por Distância da Realidade

Campinas falha na vacinação de gripe para crianças e idosos. A política pública, desconectada da realidade familiar, não alcança as metas por ignorar desafios diários.

🟢 Análise

A vida pública, por vezes, confunde a força da lei com a engenharia da existência. Em Campinas, a meta de vacinação contra a gripe, um porto seguro a 90% de cobertura, permanece distante para crianças e idosos, enquanto as Secretarias de Saúde e Educação insistem em “reforçar a importância”. Mas, convenhamos, o problema não está na desinformação que se resolve com mais panfletos; está na desconexão brutal entre a intenção do Estado e a vida real das famílias. Apenas 7,36% das crianças de 6 meses a 5 anos foram imunizadas, e o quadro não é muito mais animador para idosos (20,56%) e gestantes (17,23%), a despeito de todas as doses estarem disponíveis e sem agendamento. Este cenário não é um sintoma de negligência individual, mas de uma falha de justiça na concepção e execução da política pública.

A lógica burocrática pressupõe um cidadão ideal, com tempo disponível, fácil acesso a transporte e uma compreensão plena da complexidade do calendário vacinal. Contudo, a vida, como nos ensina Chesterton em seu paradoxo sobre a sanidade do comum, é feita de mil pequenas urgências e obstáculos invisíveis para quem olha de cima. Vacinar uma criança que necessita de duas doses com 30 dias de intervalo impõe aos pais e responsáveis um ônus logístico considerável, especialmente àqueles com jornadas de trabalho extenuantes ou múltiplas dependências. As barreiras práticas de acesso, como horários de funcionamento dos centros de saúde que não se alinham com a rotina de trabalho, ou a percepção de que a gripe, para crianças saudáveis, não possui a mesma gravidade de outras doenças, são preocupações legítimas que a estratégia de “reforçar a importância” simplesmente ignora.

Ao invés de tratar os cidadãos como uma massa homogênea a ser instruída, a administração pública deveria reconhecê-los como um povo, com suas singularidades e realidades concretas. Pio XII, ao distinguir o povo da massa, advertia contra a tentação de reduzir as pessoas a números passíveis de manipulação ou de um governo genérico. A Doutrina Social da Igreja, em especial o princípio que exorta a fortalecer o que está perto e a não esmagar os corpos vivos da sociedade, recorda que o Estado não deve substituir as responsabilidades primárias da família, mas sim apoiá-las com infraestrutura e soluções que efetivamente facilitem o cumprimento desses deveres. O pedido para que as escolas “reforcem a importância” é um exemplo da transferência de responsabilidade sem a devida instrumentação, sobrecarregando instituições que não são primariamente de saúde.

É preciso, com humildade intelectual e administrativa, questionar as premissas da campanha. Foram realizadas pesquisas ou grupos focais com os pais de Campinas para entender suas razões específicas para a baixa adesão? Existe um mapeamento detalhado dos horários de maior conveniência para a vacinação, ou uma oferta flexível de pontos de imunização que vá além das unidades básicas? Onde estão as estratégias proativas, como a vacinação em massa nas escolas, drive-thrus ou horários estendidos que foram implementadas para outras campanhas? A eficácia de uma política pública não se mede pela nobreza de suas metas, mas pela sua capacidade de se curvar à realidade do homem, em vez de exigir que o homem se curve à abstração da meta.

A ausência de uma revisão crítica na oferta do serviço, na facilitação do acesso e na comunicação direcionada às preocupações específicas da população é um erro de cálculo moral e político. Não se trata de negar a importância da vacinação, que é um bem evidente para a saúde pública e para o bem da cidade, mas de questionar a estratégia que a impede de alcançar seus objetivos. Um juízo reto exige que as Secretarias de Saúde e Educação de Campinas reconheçam que a persistência da baixa adesão não é um déficit de virtude nos pais, mas um déficit de discernimento no planejamento e execução da campanha.

A proteção da vida e da saúde, para ser verdadeiramente justa, exige mais do que um comando vindo de cima; exige um caminho solidário, construído junto com as famílias, que remove os entraves e facilita a virtude. Sem essa inversão de perspectiva, sem a humildade de escutar e a justiça de adaptar o serviço à realidade, as metas continuarão sendo miragens num deserto de boas intenções.

A administração que deseja servir ao povo não impõe sua lógica, mas adapta seus meios à vida que pulsa.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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