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Caiado: Propostas, Justiça e o Risco da Desordem Social

Ronaldo Caiado propõe reforma do STF e anistia 8/1 para a 'desordem institucional'. A coluna avalia a superficialidade das soluções e o custo para a justiça e a paz social.

🟢 Análise

O edifício cívico de uma nação, para se manter de pé em tempos de turbulência, exige mais do que a retórica da emergência e menos do que a promessa vazia de um conserto mágico. Quando um pré-candidato se apresenta como o artífice da ordem, apontando falhas em todos os cantos da República, é imperativo que suas propostas sejam examinadas não apenas pela paixão que despertam, mas pela solidez dos princípios que as sustentam. Ronaldo Caiado, ao criticar a “desordem institucional” e o “abismo” para onde o país caminha, toca em preocupações legítimas sobre o endividamento familiar, os excessos judiciais e a polarização política. Contudo, a urgência de seu diagnóstico não legitima, por si só, a simplicidade de suas soluções.

A tese de que a “desordem institucional” pode ser resolvida com uma “reforma do STF” e uma anistia para os eventos de 8 de janeiro é um convite a refletir sobre a verdadeira natureza da justiça e da paz social. A Igreja, por meio do Magistério, ensina que a ordem não é a ausência de conflito, mas a correta disposição das partes, onde cada um, Poder ou cidadão, cumpre o seu dever com reta intenção. Um Supremo Tribunal, mesmo que por vezes transborde seus limites – e a observação de um necessário discernimento sobre as prerrogativas de cada poder é uma preocupação que a reta razão legitima –, não se reforma com ameaças de ingerência política, mas com um processo que garanta sua independência e a liberdade ordenada (Leão XIII), sem subvertê-la em subserviência. A anistia, por sua vez, proposta como um “encerrou”, se aplicada indiscriminadamente, pode ser vista não como um ato de misericórdia que restaura a unidade, mas como uma falha na responsabilização que compromete a verdade dos fatos e a própria memória histórica, elementos fundamentais para qualquer reconciliação duradoura. A paz não se impõe pela amnésia forçada, mas pela justiça que se dá a cada um, na medida de sua culpa e de sua reparação.

No campo econômico, a crítica ao programa “Desenrola” como “Novalgina para fratura exposta” acerta no reconhecimento do profundo endividamento que aflige quase a totalidade das famílias brasileiras. É uma preocupação legítima que clama por ação efetiva. No entanto, um diagnóstico médico não substitui a prescrição de um tratamento. É preciso ir além da crítica pontual e apresentar um plano robusto que fortaleça a capacidade das famílias e dos corpos intermediários (Pio XI), respeitando a propriedade com função social (Leão XIII) e a justiça social. A mera denúncia de políticas assistenciais como “rasteiras” e que “usam os mais pobres” carece de uma alternativa que promova a autonomia e a dignidade das pessoas, garantindo que a saída do endividamento não seja um mero paliativo, mas um caminho para uma vida econômica digna e estável.

A autoproclamação de sucesso na gestão de Goiás, com 88% de aprovação e a alegação de “melhor educação” e “segurança” sem dados externos independentes, ilustra a tentação de substituir a veracidade pela retórica eleitoral. A sanidade política, para usar uma ideia que Chesterton muito apreciaria, reside não na autoproclamação de virtudes ou na exaltação de um modelo supostamente infalível, mas na humildade de reconhecer os limites e na honestidade de apresentar evidências. A gestão pública de um Estado, por mais exitosa que seja, não se replica automaticamente em um país de dimensões continentais e desafios heterogêneos.

A complexidade da República não se curva a simplificações apressadas nem a soluções que, sob o manto da “ordem”, podem abrir precedentes para maior desordem. A verdadeira força de um estadista não está em sua capacidade de demolir, mas em sua sabedoria política para edificar, para discernir onde os alicerces estão fracos e como fortalecê-los. A tarefa de governar um país não é um solo para monólogos de autoproclamação, mas um espaço de diálogo constante e de busca incessante pela justiça, que é a base da ordem moral pública (Pio XII) e o caminho para a paz que se sustenta. O Brasil não precisa de um polemista que apenas acusa, mas de um governante que, com prudência e retidão, saiba restaurar a integridade institucional sem dilacerar ainda mais o tecido social.

Fonte original: Estadão

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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