A cena eleitoral em Cabo Verde, à primeira vista, oferece o espetáculo da normalidade democrática. Há um pleito, há candidatos em disputa, há a presença de observadores internacionais e um período pré-eleitoral que, segundo os relatos, transcorreu em pacífica rotina. É o verniz da civilidade, a fachada polida de um edifício cívico que, para muitos, bastaria. Contudo, a mera formalidade não esgota a substância da vida política. Como bem ensina o Magistério, a justiça não se contenta com as aparências; ela exige a retidão nas fundações, a equidade nas causas, a verdade nas promessas e a transparência nas intenções.
As informações que chegam, ainda que preliminares, acendem sinais de alerta. As acusações de uso de recursos estatais pelo partido no poder, o MpD, assim como as suspeitas de que um candidato da oposição, Francisco Carvalho, possa ter contornado a legislação eleitoral, não podem ser meramente desqualificadas como ruído de campanha. Tais alegações, se não investigadas com rigor e sem hesitação pelas autoridades competentes, representam uma corroa silenciosa à integridade do processo. Quando o aparato público é instrumentalizado para fins partidários, a legítima crítica à “estatolatria”, tão cara a Pio XI, ressurge em sua plena pertinência: o Estado, que deveria ser servidor do povo e da ordem justa, converte-se em ferramenta para a manutenção de poder.
A promessa de um aumento salarial de 30% feita pelo MpD, partido no governo, em pleno período eleitoral, merece um olhar atento. Uma proposta econômica, em si, é legítima. Mas a virtude da honestidade exige que ela seja sustentável, transparente em seus custos e benefícios, e não uma mera isca eleitoral lançada para manipular expectativas. É preciso discernir se tal medida se alinha com o bem da cidade e a responsabilidade fiscal de longo prazo, ou se é apenas um atalho para o voto, que pode comprometer a solvência pública e a ordem econômica. A retidão na administração dos bens comuns demanda que o cálculo político se submeta à ética, e não o contrário.
A vitalidade de uma democracia não se mede apenas pela presença de urnas, mas pela qualidade da escolha que o eleitor pode fazer. A elevada taxa de indecisos e a abstenção projetada são mais do que números frios; são sintomas de uma possível distância entre os cidadãos e o processo. Quando o povo se transforma em massa amorfa, sem clareza sobre as opções, ou sem confiança nos resultados, a expressão genuína da vontade popular é fragilizada. As missões de observação internacional, embora importantes para a superfície da lisura, não podem substituir a vigilância interna e a consciência crítica de uma sociedade que se quer protagonista de seu próprio destino.
O verdadeiro desafio de Cabo Verde, em seu caminho rumo aos 50 anos de independência, transcende a mera contagem de votos. Ele reside na edificação de um governo reto, onde a justiça se manifeste não apenas na paz formal das eleições, mas na equidade da competição e na honestidade das intenções. As regras devem ser observadas, as acusações, investigadas, e as promessas, enraizadas na viabilidade e no compromisso com o bem da coletividade. A democracia é um chamado constante à integridade, um palco que exige mais do que atores convincentes; exige protagonistas verazes, para que o tecido da confiança cívica não se desfaça em meras promessas de campanha.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.