A Bulgária, essa encruzilhada milenar entre Oriente e Ocidente, exausta por um ciclo infindável de oito eleições em cinco anos, agora parece suspirar de alívio. A vitória avassaladora de Roumen Radev, um ex-general e piloto de caça, prometendo uma maioria parlamentar absoluta inédita desde 1997, soa como um bálsamo para um povo fustigado pela instabilidade e pela corrupção percebida. O grito de “Nós superamos a apatia” de Radev ressoa com a esperança genuína de muitos búlgaros que, como a aposentada Stiliana Andonova, simplesmente “querem que tudo mude”. Essa busca por ordem e governabilidade é um anseio legítimo da alma humana, um direito fundamental para a vida em sociedade, e a instabilidade crônica é, por si, um veneno à vida cívica.
Os números falam por si: a coligação Bulgária Progressista de Radev conquistou 44,7% dos votos, projetando cerca de 130 das 240 cadeiras do Parlamento, com uma participação eleitoral acima de 50%, a mais alta desde 2021. É uma guinada dramática em um país que, apesar de membro da União Europeia desde 2007, permanece o mais pobre do bloco, assombrado por redes político-econômicas informais e uma profunda crise de confiança nas instituições. A promessa de Radev de combater a “oligarquia política” e restaurar a estabilidade, portanto, não é um mero capricho, mas uma resposta a uma dor coletiva. O povo, farto de promessas vãs e rearranjos de cúpula, parece ter apostado tudo em uma figura que se apresenta como catalisador de mudança.
Contudo, é aqui que o Polemista Católico precisa levantar a bandeira da veracidade e da prudência. A ânsia por estabilidade, por mais justa que seja, não pode vir ao custo da ordem moral e da liberdade ordenada. A antítese, com razão, questiona o que se esconde sob o manto do “pragmatismo” e da “Bulgária Progressista”. A coligação heterogênea de Radev – militares, ex-socialistas, esportistas, e eleitores pró-Kremlin – levanta dúvidas sobre a coesão ideológica e a consistência futura. O cientista político Teodor Slavev observa que Radev “capturou parte do eleitorado do partido pró-Kremlin Vazrazhdane”, uma nuance que não pode ser ignorada. Daniel Smilov adverte sobre pressões “eurocéticas”, e Gergana Mihailova expressa “preocupação de que a orientação europeia do país possa se deslocar em direção a Moscou”. O que é esse “espírito crítico e pragmatismo” que Radev promete, senão uma ambiguidade perigosa, que pode ocultar a verdade de uma aliança estratégica em nome de uma falsa neutralidade?
Aqui reside o dilema central: a busca por um governo forte é legítima, mas a história ensina que a força sem virtude e sem a salvaguarda institucional degenera em estatolatria. Pio XI, em sua crítica à adoração do Estado, alertava para os perigos de uma centralização que esmaga os corpos intermediários e enfraquece a autonomia das comunidades menores, prometendo soluções rápidas que acabam por corroer a vitalidade da sociedade. Uma maioria absoluta, se usada para concentrar o poder de forma desmedida, pode não resolver a “crise de confiança nas instituições”, mas apenas reconfigurar a “captura do Estado por redes político-econômicas informais” em torno de uma nova figura. O “povo” se torna “massa” quando sua voz é canalizada para um único líder, sem os filtros da deliberação plural e dos contrapesos institucionais, como Pio XII tão bem distinguiu. A veracidade, neste contexto, não é apenas sobre não mentir, mas sobre a verdade das intenções e a transparência das ações.
A verdadeira estabilidade de uma nação não se funda na vontade de um único homem, por mais carismático ou popular que seja, mas na solidez das instituições, na primazia da justiça e na vitalidade da liberdade ordenada. A luta contra a corrupção e a oligarquia é imperiosa, mas deve ser travada com as armas da lei e da virtude, fortalecendo os mecanismos de fiscalização, garantindo o pluralismo e promovendo a autonomia das esferas sociais. Não basta derrubar a velha oligarquia para erguer uma nova, ainda que com faces diferentes. É um paradoxo, talvez chestertoniano, que a ânsia por sanidade e ordem possa, em sua impaciência, abrir a porta para uma forma mais sutil e duradoura de desordem — aquela que anula a liberdade em nome da eficiência aparente. A humildade de um líder se revela não em sua capacidade de concentrar poder, mas em sua sabedoria para distribuí-lo e fortalecê-lo nas instâncias mais próximas do povo.
A Bulgária tem a chance de reconstruir a confiança e a governabilidade. Mas essa reconstrução deve ser um trabalho paciente e multifacetado, assentado na verdade dos propósitos e na justiça das estruturas, e não na retórica de um salvador ou no “pragmatismo” que flerta com a ambiguidade geopolítica. A promessa de “esperança sobre a desconfiança, liberdade sobre o medo” só se concretizará se Radev e sua coligação demonstrarem que seu poder serve ao bem da cidade, consolidando a ordem democrática e não meramente a sua própria autoridade. A solidez de uma nação se mede pela integridade de seus alicerces, e não pela altura de seus andaimes políticos.
Fonte original: Terra
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