O Brandmauer, a barreira erguida para conter o avanço do extremismo, é hoje um dos símbolos mais tensos da política alemã. Ele representa a recusa formal dos partidos estabelecidos em negociar com a Alternativa para a Alemanha (AfD), que se consolida eleitoralmente e já projeta vitórias regionais em setembro. Mas quando uma parte significativa do povo passa a desafiar essa parede de isolamento com seus votos, é preciso indagar se a fortaleza se mantém ou se racha sob a pressão, expondo mais do que protege.
Os números são irrecusáveis. O AfD galga degraus nas pesquisas, especialmente no leste alemão, com projeções que o colocam a um passo de governar estados como Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Esse movimento não é um capricho, mas um sintoma de um profundo mal-estar social. A agenda da AfD é clara e, em muitos pontos, alarmante: a proposta de “remigração”, que implica a deportação em massa de imigrantes, discutida em Potsdam com neonazistas e empresários, não é apenas um programa político, mas um ataque à dignidade intrínseca da pessoa humana e uma afronta à caridade. A evocação da “Grande Substituição”, uma fantasia conspiratória que instrumentaliza medos legítimos, revela uma arquitetura ideológica que não se sustenta na verdade, mas na manipulação de ressentimentos.
É impossível, contudo, ignorar que o terreno fértil para essa ascensão não brotou do nada. Preocupações legítimas de uma parcela do eleitorado, como a insatisfação com políticas de imigração e integração, a busca por segurança energética após a invasão da Ucrânia e o descrédito nas elites políticas, foram negligenciadas. A justiça social exige que o Estado e os corpos intermediários da sociedade se curvem sobre essas feridas reais, não para validar as propostas extremistas, mas para atender ao clamor dos que se sentem abandonados. A ausência de respostas concretas e eficazes para esses anseios apenas pavimenta o caminho para a oferta de soluções simplistas e perigosas, que apelam ao desespero em vez da razão.
Nesse vácuo, a estratégia do Brandmauer, ainda que compreensível em um país com a cicatriz do nazismo, pode se revelar uma espada de dois gumes. Ao invés de conter o extremismo, o isolamento político corre o risco de fortalecer a narrativa da AfD como a única voz “anti-sistema”, a única que ousaria “falar a verdade” contra o establishment. A demonização sem um engajamento substancial com as causas do descontentamento pode polarizar ainda mais o debate público, transformando uma divergência política em uma guerra cultural onde os princípios da veracidade e da honestidade intelectual são as primeiras vítimas.
A lição tomista é clara: a justiça não se exerce apenas na condenação do mal, mas na reta ordenação dos bens e na busca do bem da cidade. Isso significa que, frente ao extremismo, a resposta não pode ser apenas a condenação, mas a reconstrução. É preciso que os partidos democráticos reaprendam a virtude da laboriosidade e da responsabilidade para oferecer soluções genuínas aos problemas que afligem o povo. Isso implica reforçar a subsidiariedade, capacitando as comunidades e os corpos intermediários a resolverem suas questões mais próximas, e exercer a solidariedade, garantindo que ninguém seja deixado para trás.
A fragilidade da democracia não reside apenas na ameaça externa do extremismo, mas na corrosão interna da confiança e na falha em servir a todos os membros do povo, não da massa. A Alemanha, com sua memória histórica, tem o dever de ser um farol de retidão. Não bastam as barreiras erguidas contra o erro; é preciso edificar a polis sobre os pilares inabaláveis da justiça e da veracidade, cultivando um povo que, por estar bem governado, saiba discernir a vida da morte, a ordem do caos.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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