A diplomacia, por sua natureza, é a arte da ordem e do rito, um balé de formalidades que espelha a ordem entre as nações. Mas quando a porta dos fundos da Casa Branca se abre para um pré-candidato à presidência de uma nação soberana, e não para seu chefe de Estado legitimamente constituído, o espetáculo não é de ordem, mas de uma estranha pantomima política. A recente visita de Flávio Bolsonaro a Donald Trump, fora da agenda oficial americana, e o subsequente pleito para que facções criminosas brasileiras sejam classificadas como terroristas pelos EUA, expõem uma grave tensão entre a necessidade premente de segurança e a inviolabilidade da justiça nos processos políticos e diplomáticos.
É inegável a praga do crime organizado, com o PCC e o Comando Vermelho a atormentar a paz e a segurança do povo brasileiro. A busca por meios eficazes para combater tais males transnacionais é um dever de qualquer governante. Contudo, a maneira de buscar esse auxílio não é indiferente à reta razão. O governo Lula, por meio do Itamaraty, já havia recusado formalmente o pedido do Departamento de Estado americano para essa mesma classificação, precisamente por recear a abertura de um perigoso precedente para interferências diretas em território brasileiro. A prudência diplomática e o respeito à soberania – um corolário do princípio da subsidiariedade na ordem internacional, que defende a autonomia das nações em suas esferas de competência – impõem que tais questões sejam tratadas com a seriedade e pelos canais formais que a Constituição e o direito internacional exigem.
A instrumentalização da política externa e de temas de segurança nacional para ganhos eleitorais internos é um vício que corrompe a esfera pública. A foto com o presidente de uma superpotência, ainda que negada como apoio de campanha, carrega um peso simbólico inegável, especialmente para um pré-candidato em crise. Especialistas não deixam de notar que, para certos setores do eleitorado, isso pode soar como um endosso, uma chancela externa que visa compensar fraquezas domésticas. A política, no entanto, deve ser tecida na luz do dia, com a veracidade de seus propósitos e a transparência de seus meios, e não nas sombras de encontros informais que, intencionalmente ou não, servem a uma agenda particular em detrimento da estabilidade e do decoro institucionais.
Não se pode ignorar o histórico recente de ações unilaterais dos Estados Unidos, como os ataques a embarcações venezuelanas sob acusação não comprovada de tráfico, ou a invasão da Venezuela e a prisão de seu presidente. Tais precedentes não são meras notas de rodapé na diplomacia; são alertas que sublinham a necessidade de uma política externa brasileira robusta e independente, capaz de zelar por seus interesses soberanos. A defesa de nossa casa comum, a nação, não pode ser terceirizada nem ficar à mercê de gestos calculados de potências estrangeiras que podem vir a desestabilizar nossa ordem interna, especialmente em tempos de pleito eleitoral.
O verdadeiro combate às facções exige mais do que designações externas, por mais impactantes que pareçam. Requer uma política interna de segurança coesa, um sistema de justiça eficaz, o fortalecimento de corpos intermediários e a reconstrução de uma ordem moral pública que desvie os jovens do crime. Requer, enfim, um esforço nacional contínuo e honesto, que não subverta os princípios da soberania e da autoridade legítima para pescar votos em águas turvas.
A verdadeira força de uma nação não se busca em endossos externos, mas se edifica na integridade de seus processos internos e na lealdade de seus filhos ao bem maior de sua casa comum.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.