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Dinamite e Protestos: A Busca por Justiça Demanda Ordem

Bolívia: A retórica da dinamite e bloqueios prega a "democracia" da paralisia. O artigo questiona a anarquia como caminho à justiça, defendendo a liberdade ordenada e o bem comum.

🟢 Análise

O cheiro de dinamite nas ruas bolivianas, ecoando a voz de um polemista brasileiro que prega a “democracia” do bloqueio e da paralisia total, apresenta-nos um dilema antigo, mas sempre novo: qual o caminho legítimo para a justiça em uma sociedade imperfeita? Não é de hoje que as instituições políticas se mostram aquém das expectativas populares, os tribunais parecem instrumentalizados e as promessas de mudança se esvaem em labirintos burocráticos. Há, sim, uma frustração genuína e uma descrença compreensível na capacidade dos arranjos formais de responder à dor e à privação de muitos. Mas a resposta a essa chaga não pode ser o veneno que destrói o corpo inteiro.

A retórica que elege a mobilização extra-institucional e o confronto como o “único caminho” para a transformação política confunde a justa indignação com a total deslegitimação de toda a ordem social. É a loucura lógica que Chesterton talvez risse, pois em sua busca por uma pureza absoluta, ela desdenha de qualquer ganho incremental, de qualquer espaço de negociação, de qualquer esforço de construção paciente. Quando a greve geral, o bloqueio de estradas e o uso de dinamite são celebrados como a quintessência da democracia, ignora-se que a anarquia, ao invés de libertar, muitas vezes abre as portas para uma tirania ainda mais brutal, ou para um caos que devora primeiro os mais vulneráveis. O povo, alertava Pio XII, não é massa amorfa a ser agitada ao sabor de consignas, mas um conjunto orgânico de comunidades e indivíduos, com direitos e deveres que exigem um mínimo de ordem para serem exercidos.

A Doutrina Social da Igreja, ao contrário da paixão revolucionária que vê no Estado apenas um inimigo a ser abatido, nos ensina a valorizar a liberdade ordenada e a primazia do bem comum. Reconhecemos a necessidade de justiça social e subsidiariedade, mas sempre dentro de um arcabouço que preserve a vida e a dignidade de todos. O Estado, mesmo com suas imperfeições e tentações estatolátricas, pode e deve ser um instrumento a serviço da justiça, regulando, mediando e protegendo, em vez de ser visto como um monólito intrinsecamente perverso que merece apenas a demolição. A alegação de que eleições são “fraudulentas” sem evidências independentes concretas, ou que qualquer ato de governo em meio a uma crise popular – como o envio de ajuda humanitária – é uma “política de furar greve”, revela uma rigidez ideológica que anula a complexidade do real. É uma visão que, em sua ânsia por desmascarar a “burguesia”, cega-se para as necessidades urgentes do povo real, que precisa de alimento e paz, não de paralisia total.

A experiência da história nos mostra que a desestabilização completa do sistema, sem um projeto claro de reconstrução que respeite os bens internos da comunidade política, não leva à terra prometida, mas ao deserto. O caminho para a justiça passa, sim, pela mobilização popular e pela denúncia corajosa dos abusos, mas não pelo abandono da prudência e da busca por soluções que, mesmo imperfeitas, possam promover a ordem e o desenvolvimento. A insistência em uma “revolução política” como único destino, negando qualquer capacidade de reforma ou de ganhos sociais incrementais dentro das instituições existentes, é uma receita para a amargura e a desilusão contínua. Afinal, se o Congresso é “reacionário” e ainda assim vota o fim da escala 6×1, não haverá aí, talvez, um sinal de que a pressão externa e a negociação interna podem, sim, render frutos, ainda que parciais?

Lidar com a criminalidade organizada, por exemplo, não pode ser reduzido a uma questão de “reacionarismo” da lei. A proteção da vida, da propriedade e da segurança dos cidadãos é um dever elementar do Estado, e as ferramentas para combatê-la devem ser justas e eficazes. Reduzir as críticas a uma “escalada reacionária” sem apresentar alternativas concretas é negligenciar a segurança dos próprios trabalhadores que se diz defender. A verdadeira força de um movimento popular não reside na capacidade de incendiar a casa comum, mas na de edificar sobre alicerces sólidos, mesmo que de tijolo em tijolo.

É preciso, portanto, olhar para a frustração legítima que impulsiona tais discursos sem, contudo, cair na armadilha da desordem. O anseio por um mundo mais justo deve se traduzir em ação concreta e construtiva, capaz de discernir entre a reforma necessária e a demolição total. A grande questão é se queremos reconstruir a casa comum ou transformá-la em ruínas onde se dança ao som da dinamite.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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