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Bolívia: Crise dos Subsídios e o Pacto Social em Risco

A Bolívia enfrenta crise social após corte de subsídios à gasolina. Protestos massivos e criminalização de líderes expõem a fragilidade do pacto social e a urgência de diálogo autêntico.

🟢 Análise

A Bolívia, na encruzilhada de suas estradas bloqueadas, tornou-se um espelho das angústias que atravessam nações quando o pacto social se rompe. O que se vê hoje, nas ruas conflagradas por onde mal circula o oxigênio para hospitais, não é um mero desarranjo político, mas a chaga aberta de uma ferida econômica que, ignorada, ameaça dilacerar o tecido da vida comum.

O governo de Rodrigo Paz, em sua recém-inaugurada gestão, optou pela via mais abrupta para reordenar as contas públicas: o corte de subsídios à gasolina. Num país já fragilizado, onde o poder de compra dos bolivianos havia minguado 14% em um ano, e após quase duas décadas de governos de esquerda que legaram uma dívida de 95% do PIB, a medida funcionou como um catalisador para a inflação, dobrando os preços nos postos e arremessando milhares à beira do desespero. Sindicatos, agricultores, mineiros, professores e comunidades indígenas, ou seja, o povo em sua diversidade laboriosa, saíram às ruas em protesto.

Diante da explosão de descontentamento, a narrativa oficial emergiu rápida e incisiva: o Departamento de Estado americano e o próprio governo boliviano classificaram os distúrbios como uma “tentativa de golpe”, com o Ministro da Economia acusando os manifestantes de serem “agentes políticos” a serviço do ex-presidente Evo Morales, sem, contudo, apresentar provas. Essa simplificação ignora a complexidade do levante, transformando cidadãos com queixas legítimas numa massa amorfa e manipulável, um perigoso rebaixamento do conceito de “povo”, como Pio XII advertia, para a mera “massa”, destituída de rosto e de razão. É uma estratégia que nega a veracidade da dor social, preferindo a conveniência da tese conspiratória.

A decisão de emitir um mandado de prisão por terrorismo e incitação contra Mario Argollo, presidente da COB, em meio a promessas de diálogo e de criação de um “Conselho Econômico e Social”, revela uma profunda contradição. Como se pode convocar ao diálogo aqueles cujos líderes são criminalizados? A busca por estabilidade não pode se dar à custa da justiça, nem pela repressão da voz dos mais atingidos pelas políticas do Estado. O direito à manifestação, embora deva repudiar a violência e a depredação, é um pilar da vida cívica e um grito legítimo contra a iniquidade.

A urgência imposta pela crise econômica boliviana exige, antes de tudo, um reconhecimento sincero da realidade e dos limites da ação governamental. Leão XIII já advertia sobre a primazia da família e dos corpos intermediários sobre o Estado, e Pio XI, ao desenvolver o princípio da subsidiariedade, sublinhava a necessidade de não esmagar as iniciativas mais próximas do cidadão. O corte abrupto de subsídios, em um contexto de fragilidade, sem amortecedores sociais ou um plano de mitigação robusto, demonstra uma falta de prudência elementar. A promessa de campanha de “modernização sem ajuda externa” de Paz, confrontada com a negociação de bilhões de dólares de empréstimos com instituições financeiras internacionais (FMI, Banco Mundial, BID), levanta ainda a questão da honestidade e da consistência na gestão da soberania econômica nacional.

A verdadeira ordem justa não se edifica sobre o silêncio forçado, mas sobre o reconhecimento das justas reivindicações e sobre a solidariedade para com os mais fracos. A política não é a arte de impor uma agenda ideológica a qualquer custo, mas a de harmonizar interesses em vista do bem de todos, especialmente daqueles que carregam os fardos mais pesados. Como Chesterton, com sua perspicácia peculiar, poderia apontar, é uma ironia trágica buscar a ordem desmantelando as próprias fundações da vida cotidiana do povo, para então acusar esse mesmo povo de desordem.

O caminho para restaurar a paz e a estabilidade na Bolívia não reside na criminalização das manifestações ou na imposição de uma única verdade oficial, mas na instauração de um diálogo autêntico, que ouça as vozes dos mais vulneráveis e construa soluções que, de fato, aliviem o peso da injustiça. Só assim o corpo social poderá se curar e encontrar a via para uma vida comum digna e próspera.

Fonte original: O Povo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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