O tribunal da realidade boliviana apresenta um veredito sombrio: quatro vidas perdidas, centenas de bloqueios, e uma nação à beira do colapso, tudo sob o véu de acusações e narrativas em conflito. A escassez de alimentos e combustíveis eleva preços e impõe um martírio cotidiano a famílias como a de Jaquelyne e Jorge, estudantes brasileiros cujo negócio em Cochabamba viu as vendas despencarem 90%. Mais grave ainda, crianças morrem por falta de socorro médico, impedido pela intransigência dos bloqueios. Não há retórica que possa maquiar a crueldade desta face da crise.
Os fatos atestam que o atual governo de Rodrigo Paz herdou uma economia crítica, consequência de quase duas décadas de uma gestão fiscal que, sob a égide do Movimento para o Socialismo (MAS) de Evo Morales e Luis Arce, esgotou reservas internacionais e acumulou déficits crescentes. “Tanto Morales quanto Arce fizeram uso irresponsável das reservas e, à medida que as esgotavam, recorreram à dívida pública”, adverte o pesquisador Roberto Laserna, apontando para uma estatolatria que, em nome de subsídios e inclusão, comprometeu o futuro do país. Nesse cenário de ruína fiscal, as medidas de austeridade de Paz, incluindo a retirada do subsídio ao combustível, apresentaram-se, aos olhos de muitos, como uma amarga necessidade para evitar um colapso ainda maior.
Contudo, a necessidade econômica não anula a responsabilidade moral. A retirada abrupta de subsídios, sem amortecedores sociais adequados, lança a população mais vulnerável a um abismo. O aumento brutal do custo de vida, a par da escassez generalizada, não é meramente um dado econômico; é uma chaga de injustiça que atinge o mais elementar direito à subsistência. A promessa de redução da pobreza e inclusão, ainda que insustentável a longo prazo, deixou um lastro de expectativas legítimas que agora se sentem traídas, exacerbando as “feridas que não cicatrizaram desde 2019”, como bem descreve a jornalista Fabiola Chambi. A justiça social exige que o ajuste macroeconômico não seja feito às custas de uma catástrofe humanitária dos mais fracos.
A polarização que rasga o corpo social boliviano é alimentada, de um lado, pela gestão inepta dos governos anteriores, que legaram um país fragilizado, e, de outro, por uma oposição que instrumentaliza o sofrimento popular para fins políticos. O ex-presidente Evo Morales, agora enfrentando processos judiciais, emerge como uma força de desestabilização, pressionando por novas eleições. É um espetáculo lamentável ver a miséria alheia convertida em moeda de barganha. Como Chesterton advertiria, é a loucura lógica das ideologias, para quem o sistema é mais importante que as pessoas. O governo de Paz, por sua vez, cambaleia sem um partido sólido ou aliança legislativa, com seu próprio vice-presidente em oposição interna, evidenciando uma fragilidade institucional que compromete a eficácia de qualquer solução.
Diante de tal dilema, a Doutrina Social da Igreja oferece balizas firmes. A justiça clama tanto pela responsabilização dos que dilapidaram o patrimônio público quanto por políticas que protejam a dignidade da pessoa humana no presente, sobretudo os mais pobres. A caridade nos impele a ver nas mortes por falta de atendimento e na fome que se espalha um clamor urgente, que transcende a contenda política. O princípio da subsidiariedade ganha luz quando vemos organizações civis e líderes comunitários se mobilizarem para desobstruir estradas e garantir o fluxo de bens. Essa ação, vinda da base, mostra que a vida comum resiste, mesmo quando as instituições superiores falham em proteger e servir.
O presidente Paz tentou o diálogo e cortes simbólicos, como a redução do próprio salário, mas tais gestos revelam-se insuficientes para deter uma crise de tal magnitude. A solução não pode ser meramente técnica ou autoritária. Ela exige uma sabedoria política que una o discernimento econômico à sensibilidade social, capaz de construir pontes onde hoje há apenas abismos. É preciso que a ordem dos bens seja restabelecida, onde o homem e sua subsistência precedam a purga ideológica ou a frieza dos números.
A Bolívia não precisa de mais escombros de guerra política, mas de alicerces de convivência. A paz duradoura emergirá quando a verdade for tratada com honestidade e os custos do ajuste forem distribuídos com equidade, não apenas como uma imposição econômica, mas como um pacto de solidariedade para reerguer a casa comum.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.