A cada dois anos, Veneza ergue seus palcos flutuantes para celebrar a arte, um convite ao universal, ao transcendente, à voz que fala para além das fronteiras. Mas a Bienal de 2026, antes mesmo de abrir as portas, revela-se menos um santuário da beleza e mais um mercado de conveniências políticas, onde a verdade artística é barganhada e a justiça, mal compreendida, é sacrificada no altar da “diplomacia cultural”. O que deveria ser um espelho da alma humana, em suas mais diversas expressões, transforma-se num reflexo distorcido de tensões geopolíticas, onde a arte corre o risco de virar mera bandeira ou mero pano de fundo para a farsa.
O retorno da Rússia, após sua retirada voluntária em 2022 em protesto contra a invasão da Ucrânia, é um dos mais eloquentes sinais dessa inversão. A Comissão Europeia ameaça cortar financiamento, há divergências dentro do próprio governo italiano, e a presença de uma comissária com fortes laços com o aparato de segurança russo lança uma sombra sobre a autonomia da representação. Como é possível sustentar a imagem de um fórum livre quando uma nação que comete agressões militares e violações de direitos humanos é reinserida, e ainda por cima com indícios de instrumentalização da própria plataforma artística para “polir sua imagem”, como bem denunciou Nadezhda Tolokonnikova? A arte, sob tais condições, deixa de ser um instrumento de catarse ou de crítica para se tornar um mero verniz sobre a realidade, uma fachada de normalidade que ofende a veracidade. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, já advertia contra a absorção de todas as esferas da vida, incluindo a cultura, pelo poder estatal. A liberdade ordenada, conforme Leão XIII, exige que as associações livres, como as instituições culturais, preservem sua autonomia frente às imposições do Estado.
A situação da África do Sul é ainda mais gritante. A artista Gabrielle Goliath, escolhida para representar seu país, viu sua obra ser censurada pelo ministro da Cultura por querer homenagear uma poeta palestina morta em ataque aéreo. O pavilhão sul-africano permanece vazio, um silêncio forçado que é, em si, um grito. Aqui, a instrumentalização não é sutil; é uma censura direta, um veto explícito à liberdade de expressão em nome de uma agenda política. A arte, que deveria dar voz aos marginalizados e aos que sofrem, é silenciada precisamente quando tenta cumprir seu papel mais urgente. É uma afronta à dignidade do artista e à capacidade da arte de confrontar as realidades incômodas, mostrando a perigosa tendência de governos controlarem o que pode ou não ser exibido, sufocando a virtude da fortaleza que deveria habitar a criação.
E se a Bienal se quer um espaço de diálogo universal, como pode a Palestina, um povo com uma história cultural milenar e uma situação de conflito dramática, ser excluída da possibilidade de um pavilhão próprio por não ser um “Estado oficialmente reconhecido pela Itália”, enquanto Israel, cujo pavilhão tem sido alvo de protestos e teve sua abertura condicionada por sua própria artista a um cessar-fogo, recebe um espaço assegurado? A inconsistência é flagrante e clama por justiça. A exposição paralela ‘Gaza – No Words’ é um paliativo bem-vindo, mas não redime a falha estrutural de um evento que se diz inclusivo, mas perpetua a exclusão política em seu cerne. A defesa da arte não pode ignorar as estruturas que silenciam vozes e apagam existências, sob pena de sua própria universalidade se tornar uma farsa seletiva.
O melhor argumento contrário, de que a Bienal deve ser um espaço de diálogo e inclusão universal para não se tornar um instrumento de sanção política, possui uma parte de verdade. A arte, de fato, pode ser um poderoso catalisador para a crítica e o entendimento. No entanto, o diálogo é autêntico apenas quando ancorado na verdade e na justiça, não quando serve de cortina de fumaça para a instrumentalização. Permitir que governos usem a Bienal como lavagem de imagem ou que censurem seus próprios artistas é minar o propósito do evento. É vital que a Bienal, como instituição, não se curve à lógica do “povo versus massa” denunciada por Pio XII, onde a massa amorfa e sem crítica é manipulada pelos poderes, mas defenda o povo, o artista, o indivíduo em sua liberdade de expressão. A visão da falecida curadora Koyo Kouoh, de destacar “vozes marginalizadas ou frequentemente ignoradas”, adquire um tom quase profético e irônico diante da realidade das polêmicas que buscam sufocar exatamente essas vozes.
A Bienal de Veneza, ao se deixar guiar por uma prudência política que cede à força de governos e à inconsistência de princípios, trai a própria vocação da arte e da cultura. A verdadeira dignidade de um evento como este reside na sua capacidade de ser um farol de justiça e veracidade, defendendo a autonomia do artista e a integridade da expressão, mesmo em face de pressões. Quando falha em ser isso, transforma-se num palco de sombras onde a beleza se esvai e a verdade se cala, e a herança cultural, em vez de elevar o espírito, reflete apenas as manobras rasteiras do mundo.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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