Quando o clarão dos mísseis rasga o céu da madrugada e o som da explosão arranca o sono dos cidadãos, a primeira vítima, antes mesmo dos corpos atingidos, é a clareza moral. Kiev, mais uma vez, amanheceu sob o estampido de uma ofensiva russa, com o míssil balístico hipersônico Oreshnik, capaz de transportar ogivas múltiplas, a perfurar as defesas e ceifar vidas inocentes. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou quase uma centena de feridos e a Organização Mundial de Saúde (OMS) viu seu escritório danificado, prova cabal de que a guerra não respeita nem fronteiras, nem missões de alívio. Mas, se de um lado se lamentam as perdas ucranianas, do outro, a Rússia acusa Kiev de atacar depósitos de petróleo e munições em seu território, numa espiral de retaliação que parece não ter fim.
É fácil, em meio a tal tumulto, ceder à tentação de uma simetria moral conveniente, de um cinismo que nivela todas as ações em nome da “névoa da guerra”. Afinal, se ambos os lados atacam, quem pode julgar? É uma preocupação legítima a de que a escalada contínua aumente o risco de um erro de cálculo irreversível e que o impacto sobre civis seja uma chaga aberta e persistente. Contudo, a doutrina católica nos ensina que há distinções que não podem ser apagadas. Uma agressão inicial injusta não se anula pela resposta de legítima defesa, ainda que esta, na fúria do combate, possa também gerar custos trágicos. A assimetria de poder e de intenção permanece.
A justificativa russa para seus ataques como “centros de tomada de decisões” soa vazia diante dos escombros de hospitais, residências e até mesmo do escritório de uma organização humanitária. Pio XII, em sua lucidez sobre os perigos da massificação, alertava sobre a diferença abissal entre “povo” e “massa”: o povo é uma comunidade de pessoas livres e responsáveis, enquanto a massa é um aglomerado informe, facilmente manipulável e, pior, sacrificável. Ao atacar indiscriminadamente áreas civis, a estratégia russa trata o povo ucraniano como massa, desconsiderando a dignidade intrínseca de cada indivíduo e família, violando a ordem moral pública que é o alicerce de qualquer sociedade.
Mais grave ainda, a recente legislação russa que autoriza o envio de tropas para “proteger” cidadãos russos no exterior representa uma perigosa extensão da estatolatria, termo cunhado por Pio XI para descrever a divinização do Estado, que se arvoraria no direito de intervir onde quer que alegue haver “seus” cidadãos em risco ou “russofobia”. Tal pretensão é um atentado à liberdade ordenada das nações, tal como ensinou Leão XIII, e pavimenta o caminho para agressões futuras baseadas em pretextos. É a loucura lógica das ideologias, denunciada por Chesterton, que inverte a realidade: o que deveria ser um instrumento de ordem e justiça — o Estado — transforma-se em pretexto para a desordem e a injustiça sob o manto de uma “proteção” que esmaga soberanias alheias.
Não se trata de negar a complexidade do cenário ou a dificuldade de verificação independente. Pelo contrário, a busca incessante pela veracidade é uma virtude essencial para não se ceder à propaganda e à retórica que obscurece os fatos. Mas essa busca deve ser guiada pela justiça, que exige reconhecer a agressão onde ela existe e proteger os mais vulneráveis. A comunidade internacional é chamada à fortaleza de caráter para não se deixar paralisar pelo relativismo moral, nem pelo temor de uma escalada nuclear que, embora real, não pode justificar a complacência diante da destruição de vidas e da erosão do direito internacional.
A paz não se constrói com a submissão ao arbítrio, nem com o silêncio diante da injustiça. Ela é fruto da ordem reta, da observância dos tratados e da inabalável proteção da vida e da soberania das nações. Se um poder se arroga o direito de redefinir fronteiras pela força e de justificar ataques a civis, a única resposta moral é a condenação clara e a incessante busca por uma ordem internacional que resguarde a dignidade humana. O caminho é estreito e árduo, mas é o único que não nos condena à repetição eterna dos horrores.
Fonte original: Diario de Pernambuco
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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