Imagine a Avenida Faria Lima, pulso financeiro de São Paulo, onde o tempo é dinheiro e a visibilidade se mede em altura de edifício. Nesses arranha-céus de cristal e aço, o ritmo é ditado pela urgência do lucro e pela discrição dos negócios. Mas, no térreo de um instituto de arte ali encravado, surge uma exposição que subverte essa geografia da invisibilidade, trazendo para a luz a coreografia áspera da precariedade. É Allan Weber, em sua mostra ‘Existe um Mundo Todo que Tu Não Conhece’, que monta um espelho invertido: o universo dos entregadores, dos motoboys, da ‘gambiarra’ que sustenta uma cidade invisível aos olhos apressados.
A genuína intenção do artista de Cinco Bocas, Allan Weber, não pode ser posta em dúvida. Ao erguer torres de caixas d’água empilhadas no Instituto Tomie Ohtake, replicar a estética dos bancos de moto e das bolsas térmicas, ou ao documentar a vibrante vida da favela em ‘Traficando Arte’, ele oferece uma plataforma rara e necessária. É a voz do ‘circuito inferior’, tão bem descrito por Milton Santos, rompendo o silêncio do circuito hegemônico, uma busca por representação que clama por reconhecimento e dignidade para aqueles que, com suor e inventividade, ‘sustentam na raça’.
Contudo, a nobreza de propósito não isenta a obra de um exame mais profundo sobre seus desdobramentos. O ‘cubo branco’ da galeria, com sua aura de neutralidade e distanciamento estético, tem a inquietante capacidade de transformar a denúncia em mero objeto de contemplação. Há o risco real de que a precariedade do motoboy, a genialidade da ‘gambiarra’ e a vida árdua da ‘quebrada’ se convertam em um ‘fetiche’ cultural, uma experiência de consumo para um público que pode aplaudir a arte sem, contudo, ser tocado pela urgência moral da realidade que ela representa. A arte corre o risco de reembalar a dor em um formato palatável.
Aqui, o Magistério da Igreja, em sua Doutrina Social, oferece um critério inegociável. A arte, para ser verdadeiramente redentora e não apenas decorativa, deve servir à justiça e à veracidade. Leão XIII, em sua `Rerum Novarum`, insistia na dignidade inalienável do trabalho e do trabalhador. A representação da realidade dos ‘invisíveis’ deve, portanto, não apenas mostrar, mas mover a alma à ação concreta, a buscar uma ordem social mais justa. A ‘gambiarra’, essa ‘tecnologia’ nascida da carência, é um testemunho da inventividade humana sob pressão, mas não deve se tornar um símbolo romântico que obscureça a falha estrutural, a ausência de infraestrutura digna e de condições de trabalho equitativas. É preciso honestidade intelectual para ver a criatividade sem ignorar a dor que a gesta.
O perigo está em reduzir a complexidade da vida no ‘circuito inferior’ a uma mera estética, esvaziando-a de seu potencial transformador. Pio XI, ao advogar pela subsidiariedade, recordava que as soluções devem nascer das comunidades, apoiadas por estruturas maiores, mas sem esmagar sua autonomia. Se a exposição se limita a ser um ‘evento’ no calendário cultural da Faria Lima, sem desdobramentos que fortaleçam os ‘corpos intermediários’ – as associações, as iniciativas comunitárias como a galeria 5 Bocas – ela pode, paradoxalmente, reforçar a própria invisibilidade que se propõe a combater. O artista quer que ‘o pessoal da quebrada’ se sinta representado; a questão é se essa representação se traduz em algo mais que um sentimento momentâneo, se ela inspira a ação em favor de uma autêntica solidariedade que carregue os custos em comum, sem abandonar o fraco.
Chesterton, com seu paradoxo mordaz, diria que o mais insano é a ‘sanidade’ que consegue celebrar a inventividade da miséria sem questionar a miséria que a produz. A grande arte reflete e incita. Para que ‘Existe um Mundo Todo que Tu Não Conhece’ transcenda o mero consumo estético e se torne um verdadeiro agente de transformação, é preciso que ela desperte não só a curiosidade, mas a magnanimidade do público – uma grandeza de alma que ambicione a superação civilizacional da precariedade, e não a sua estetização. Que o ‘cubo branco’ se torne um catalisador para a consciência e a ação, e não um mero túmulo para a denúncia.
A arte que expõe a precariedade deve ser como uma ferida aberta, incômoda o suficiente para exigir um tratamento profundo na carne da sociedade, e não um mero curativo estético. Que o espelho de Allan Weber, posto no centro financeiro, reflita não apenas o mundo que se desconhece, mas também o dever inadiável de repará-lo.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.