No palco da diplomacia global, onde as nações disputam narrativas e alianças, um assessor especial da Presidência brasileira, em visita a Moscou, defendeu a ideia de uma América Latina que “pertence aos latino-americanos”, criticando a presença militar dos Estados Unidos e condenando um suposto “sequestro” de Nicolás Maduro. Há, sem dúvida, uma aspiração legítima na busca por soberania e autodeterminação. Toda nação aspira a governar-se, e todo povo deseja a liberdade de decidir seu próprio destino. Mas a história nos ensina que o espelho da soberania pode, por vezes, refletir imagens distorcidas, especialmente quando a retórica seletiva ofusca a busca pela veracidade e pela reta justiça.
A soberania, no arcabouço da Doutrina Social da Igreja e da visão tomista, não é um cheque em branco para o isolamento nem um salvo-conduto para a tirania. É, antes, uma liberdade ordenada, um poder moral que se manifesta na capacidade de um povo para autogovernar-se em conformidade com a lei natural e o bem comum. Afirmar que a América Latina deve ser dos latino-americanos é um truísmo bem-vindo, mas a questão crucial é: quais latino-americanos? E para que fim? A região, complexa e diversa, não é um bloco monolítico de interesses ou ideologias. Há países com alinhamentos distintos, com relações comerciais e estratégicas variadas que não podem ser simplesmente varridas para debaixo do tapete de uma uniformidade retórica que nunca existiu.
A pregação de “não intervenção” e “autodeterminação” adquire um tom questionável quando se observa sua aplicação seletiva. Condenar veementemente uma alegada tentativa de sequestro de um presidente, sem evidências confirmadas e articulando essa denúncia em veículos de propaganda de outra potência, enquanto se silencia sobre as fragilidades democráticas, as crises humanitárias ou as violações de direitos humanos em outros regimes próximos, não é um ato de imparcialidade, mas de alinhamento. É a loucura lógica de certas ideologias, como diria Chesterton, que confunde a sanidade com a mera inversão de um problema, trocando um mestre por outro, sem nunca alcançar a verdadeira liberdade.
A presença militar dos EUA pode ser, de fato, um ponto de preocupação legítima, dependendo do contexto e da forma como se manifesta. Contudo, essa crítica perde força e honestidade quando se ignora a crescente presença e influência de outras potências extrarregionais, como Rússia e China, que também buscam projetar seus interesses e seu poderio. A verdadeira autonomia não se constrói substituindo uma dependência por outra, nem trocando um hegemon por um novo “parceiro” que tem seus próprios desígnios globais. A independência genuína nasce da solidez das instituições internas, da vitalidade dos corpos intermediários – associações livres, comunidades locais, empresas – e da capacidade de um país de dialogar com o mundo inteiro sem submeter-se a blocos.
O Brasil, com sua história de mais de um século sem guerras com seus dez vizinhos, possui uma credibilidade que não deve ser desperdiçada em malabarismos diplomáticos. A diplomacia, para ser justa e eficaz, precisa ser transparente e fundamentada em fatos verificáveis, e não em alegações sem provas que podem minar a confiança internacional. O caminho para a verdadeira soberania e o bem comum da América Latina passa pela construção de uma ordem regional baseada na justiça para todos os seus povos, na adesão inegociável aos princípios democráticos e de direitos humanos, e em uma política externa de múltiplos eixos, que dialogue com o Oriente e o Ocidente sem cair na armadilha de uma nova cortina de ferro ideológica.
A vocação do Brasil na arena global é ser uma ponte, um polo de equilíbrio e um articulador de consensos, e não um arauto de blocos em conflito. A América Latina é de fato dos latino-americanos, mas isso implica que nenhum regime, por mais ideologicamente alinhado que seja, deve escapar ao escrutínio da verdade e da justiça, nem que a região troque o fardo de um domínio pelo do outro. A busca por autonomia não pode ser um pretexto para o obscurantismo moral ou para a miopia geopolítica, mas um convite à edificação de uma vida comum verdadeiramente livre e próspera para todos.
A soberania que realmente liberta é aquela que se edifica na clareza dos princípios e na firmeza da verdade.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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