A política brasileira, mais uma vez, ofereceu um espetáculo de força, mas não necessariamente de solidez. A ascensão de Davi Alcolumbre ao centro nevrálgico do poder, marcada por recentes e contundentes derrotas impostas ao Executivo no Senado, é uma fotografia nítida de uma engenharia política precisa, capaz de articular vetos e indicações com uma destreza impressionante. Em poucos anos, o senador de primeiro mandato de outrora transformou-se no arquiteto de uma nova ordem no Congresso, encerrando hegemonias e redefinindo os termos da relação entre os Poderes. Sua capacidade de construir maiorias fluidas, transitando do apoio a Jair Bolsonaro à aliança com Lula, para depois confrontar o presidente em votações cruciais, é a prova de um pulso firme e de uma visão estratégica aguda.
No entanto, por trás da coreografia impecável das vitórias parlamentares, levanta-se uma questão mais profunda e incômoda: sobre que alicerces se ergue tal poder? A ficha factual atesta a influência de Alcolumbre na nomeação de ministros e diretores de agências, sua participação na gênese do “orçamento secreto”, e sua habilidade em conduzir pautas econômicas. Contudo, a análise não pode se contentar com a constatação da eficácia. É preciso perscrutar a natureza dos meios e os fins últimos desse domínio, especialmente quando a autonomia das instituições e a transparência dos recursos públicos são postas em xeque.
A legitimidade de um Legislativo forte não se mede apenas pela sua capacidade de se contrapor ao Executivo, mas pela clareza e honestidade de seus métodos. A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem da sociedade civil, reitera que o exercício do poder, mesmo que habilidoso e formalmente legal, deve ter como bússola a justiça e a promoção da vida comum, não o acúmulo personalista de influência. O controle de verbas parlamentares, especialmente por meio de mecanismos menos transparentes, como o ‘orçamento secreto’ que floresceu sob a guarda de Alcolumbre e Arthur Lira, suscita sérios questionamentos. Não se trata de negar a prerrogativa do Congresso, mas de exigir que a gestão da coisa pública seja cristalina e que os bens da cidade não se tornem moeda de troca em um balcão de negociações.
Quando a indicação de um nome para a mais alta corte judicial do país se converte em instrumento de barganha política – a primeira rejeição em mais de um século, articulada por um senador que ambicionava outra escolha –, a autonomia do Judiciário e a qualidade técnica das nomeações correm o risco de se verem reféns de um jogo de poder que transcende a prudência e a reta razão. O poder, para ser virtuoso, deve ser servil à lei natural e ao bem da cidade, e não senhor de um sistema onde a governabilidade se torna volátil e as prioridades nacionais se diluem em confrontos. O que Pio XI, ao criticar a estatolatria, vislumbrava, era a submissão do Estado a interesses particularistas, uma idolatria do mecanismo de poder em si, esvaziado de seu propósito intrínseco de servir à comunidade política.
A aparente flexibilidade ideológica que permite trânsitos entre governos opostos, embora denotando uma maleabilidade tática, pode, em última instância, corroer a honestidade programática e a previsibilidade das alianças. Isso não implica rigidez cega, mas sim a necessidade de que os pactos políticos sejam ancorados em princípios mais perenes do que o puro interesse na manutenção da influência. A república, vista como um corpo orgânico, não pode ter seus órgãos vitais dispostos a se aliar a qualquer cabeça, a qualquer custo, sob pena de perder sua própria coerência e estabilidade. A verdadeira força de um líder reside não apenas em sua capacidade de vencer, mas em sua lealdade inabalável a um projeto de Estado que transcenda as alternâncias de poder e as ambições pessoais.
Davi Alcolumbre, ao remodelar o Senado à sua imagem e semelhança, demonstrou uma maestria política notável. Mas a história nos ensina que a maestria sem justiça se confunde com a tirania, e a habilidade sem veracidade se torna engano. O desafio posto é distinguir a legítima afirmação do Legislativo da captura de suas prerrogativas por uma concentração de poder que, alimentada por mecanismos opacos, pode minar a estrutura da república, corroendo-a por dentro.
Não basta ser eficaz; é preciso ser reto. O sucesso da política não se mede apenas pela soma de vitórias parlamentares, mas pela qualidade dos alicerces que se constroem para o futuro da nação, um futuro que clama por instituições íntegras e líderes que sirvam ao Brasil antes de servirem a si mesmos.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.