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Davi Alcolumbre: Poder Personalíssimo e Crise no Senado

Davi Alcolumbre, com poder personalíssimo, impõe reveses a Lula. Sua influência, por acordos e controle de verbas, fragiliza o equilíbrio institucional e a ética pública no Brasil.

🟢 Análise

A cena política brasileira, como um rio caudaloso que teima em desviar-se do leito, oferece um espetáculo singular de poder personalíssimo. Davi Alcolumbre, presidente do Senado e do Congresso, emerge nesse cenário não como um ideólogo de estandartes claros, mas como um mestre da “cordialidade do trato” e da “ocupação de espaços”. Sua trajetória, que o levou de senador de primeiro mandato à chefia do Legislativo com o apoio de Jair Bolsonaro em 2019 – encerrando uma antiga hegemonia e inaugurando o domínio do Centrão –, culminou na semana passada com uma “dupla derrota” imposta ao presidente Lula. Essa aparente anomalia – um líder que goza de “boa relação” com o Executivo, mas não hesita em infligir-lhe reveses históricos, como a rejeição de um nome para o Supremo Tribunal Federal e a derrubada de um veto presidencial – desvela a verdadeira natureza de uma força política que molda o Estado por acordos de bastidores e controle de verbas, por vezes “não transparentes”.

O poder de Alcolumbre não é acidental nem meramente um fruto de sua habilidade pessoal, por mais notável que seja. É, antes, sintoma de uma disfunção sistêmica que permite e até incentiva a concentração de influência em figuras-chave do Congresso. A ascensão de líderes como ele, que instrumentalizam a máquina legislativa por meio de emendas parlamentares e controle de nomeações para cargos públicos, expõe a fragilidade do equilíbrio entre os Poderes. Em vez de uma harmoniosa colaboração para o bem da cidade, assistimos a um jogo de barganha que, sob a capa do pragmatismo, erode a ordem institucional e aprimora a arte da retaliação dissimulada, como na recusa da indicação presidencial para o STF.

Nesse intrincado tecido da vida pública, o que se manifesta é uma perversão da justiça. Não se trata aqui de uma crítica à autonomia do Legislativo, que é vital, mas à sua transmutação em um poder de veto e barganha que desvia a agenda governamental em favor de interesses corporativos ou pessoais. São Tomás de Aquino nos recorda que a lei e a autoridade devem ordenar os bens para o fim comum, e não serem instrumentos para a consolidação de poder individual ou de grupo. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, nos advertia contra a idolatria do poder estatal — e, por extensão, de qualquer poder dentro do Estado, mesmo que legislativo —, quando este se divorcia dos princípios e da finalidade ética. O pragmatismo, quando desprovido de uma bússola moral, torna-se uma ideologia em si, ainda que não declarada.

A ideia de um líder “não ideológico” pode soar como uma virtude em tempos polarizados, mas sob a luz da humildade intelectual, revela-se uma perigosa pretensão. G. K. Chesterton, em seu paradoxo sobre a sanidade, observava que a lógica do louco é perfeita, mas baseia-se em premissas falsas. Da mesma forma, um pragmatismo que não se curva aos princípios da ordem justa, da transparência e da subsidiariedade pode construir um sistema de influência impecável em sua mecânica, mas abalado em seus fundamentos. A ausência de uma “defesa ideológica em qualquer sentido” em Alcolumbre não significa neutralidade, mas a prioridade absoluta da conquista e manutenção do poder através da engenharia política de cargos e verbas.

As consequências desse modelo são claras: a fragilização das prerrogativas do Executivo, a instrumentalização do Judiciário via indicações e a opacidade na gestão dos recursos públicos. A governabilidade torna-se um fardo pesado, dependente da capacidade do presidente da República de fazer constantes concessões a poucos atores. A solução não reside na centralização de poder, mas no reequilíbrio virtuoso que Pio XII defendeu para uma ordem moral pública, onde o povo não é uma massa passiva, mas um corpo vivo com responsabilidade. A experiência nos ensina que fortalecer o que está perto, respeitando a iniciativa dos corpos sociais e promovendo a transparência em cada nível, é o caminho para construir um governo sábio e discernimento político, em vez de depender de acordos de gabinete.

A ascensão e o modo de operar de Davi Alcolumbre, que transita com desenvoltura entre governos de matizes distintos, não são apenas uma questão de engenharia política individual. São um espelho que reflete as fissuras no tecido da República, onde o controle do orçamento e das nomeações se sobrepõe à coerência programática e à verdade institucional. O desafio que se impõe é de reconstruir a fé nas instituições, garantindo que o poder, em qualquer de suas esferas, seja exercício de justiça e humildade ao serviço do destino comum da nação, e não um mero balcão de negócios para a perpetuação de arranjos pessoais. A verdadeira força de uma república mede-se pela integridade de seus pilares, não pela maleabilidade de seus negociadores.

Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online

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