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Agronegócio Brasil: Colheita Farta, Fissuras na Justiça

Agronegócio Brasil: A fartura global contrasta com fome interna, leis ambientais frágeis e dependência. Justiça social e solidariedade são cruciais para a paz real.

🟢 Análise

A terra que brota grãos em abundância, forrada de promessas de fartura global, apresenta-se como um dos alicerces mais poderosos do Brasil no século XXI. É uma epopeia agrícola notável, como bem observa o ex-ministro Roberto Rodrigues, cujo legado e visão para o agronegócio nacional ecoam a ambição de uma nação capaz de alimentar dois terços do mundo. De fato, a transformação do Cerrado, a tropicalização da soja pela Embrapa, o crescimento exponencial da produção em área menor e o papel das cooperativas em integrar pequenos e médios produtores são testemunhos de uma inteligência técnica e de uma capacidade de trabalho que, poucas décadas atrás, pareceriam um delírio. Há uma grandeza inegável na autossuficiência alimentar alcançada e na projeção de que o país possa se tornar um exportador de trigo em breve, um feito que inverteria séculos de dependência.

Contudo, a grandiosidade da colheita não pode ofuscar as fissuras na gleba da justiça. Quando se fala em protagonismo global e em “campeonato mundial da paz” pela via da segurança alimentar e energética, o juízo reto nos impõe a pergunta: a paz verdadeira pode florescer sobre desigualdades internas, sobre um Código Florestal “maravilhoso” mas sistematicamente ignorado, sobre a dependência crítica de insumos estrangeiros, e sobre a margem dos que ainda lutam pela dignidade da renda e pelo acesso ao alimento dentro de suas próprias fronteiras? A verdade exige que se reconheça que o “problema de fome no Brasil é de renda, não de produção”, uma confissão que lança uma sombra sobre qualquer celebração unilateral da capacidade produtiva.

É neste ponto que a humildade se faz uma virtude mais urgente que o mero otimismo. A soberba ideológica que reduz a questão ambiental a “bandidos” e ignora as pressões sistêmicas da expansão agropecuária, ou que vê a alta dependência de fertilizantes como uma escolha sem “erro”, revela uma pretensão de engenharia total que se choca com a complexidade do real. A ideia de “ensinar o mundo tropical” a replicar um modelo que ainda exige autocrítica profunda sobre seus impactos socioambientais internos, por mais bem-intencionada que seja, corre o risco de cair num paternalismo disfarçado. A paz universal, afinal, é um fruto da justiça e da solidariedade concreta, não apenas da abundância material; ela começa com a ordenação da própria casa.

O ensinamento perene da Doutrina Social da Igreja, resgatado por Leão XIII e Pio XI, oferece um norte para a tão almejada “política de Estado” para o agronegócio. A propriedade tem, sim, uma função social, e a terra que dá frutos deve servir ao bem de todos, não apenas à lógica do mercado exportador. As cooperativas, justamente exaltadas, são um exemplo vivo da subsidiariedade em ação, fortalecendo os corpos intermediários e evitando que o Estado esmague as iniciativas locais. Mas essa mesma subsidiariedade demanda que se olhe para além dos grandes números e se garanta que os pequenos produtores não cooperados, os povos indígenas e as comunidades tradicionais não sejam simplesmente empurrados para as margens do sistema, em nome de uma eficiência que não se traduz em equidade.

O caminho para o Brasil ser verdadeiramente um baluarte de segurança alimentar e de uma paz duradoura passa por um discernimento político que transcenda a métrica da produção e exportação. É preciso um plano robusto para reduzir a vulnerabilidade estratégica dos fertilizantes, estratégias concretas para o cumprimento do Código Florestal, e, sobretudo, políticas que conciliem a vocação exportadora com a garantia da segurança alimentar e nutricional doméstica para a população de baixa renda. Isso implica diversificar a produção para o mercado interno e assegurar preços acessíveis, em um pacto de solidariedade que carregue os custos em comum e não abandone o mais fraco.

O verdadeiro legado não será medido apenas pelo volume das safras, mas pela capacidade de edificar uma ordem social onde a abundância do campo se traduza em vida digna para todos, onde o respeito pela criação se harmonize com o progresso, e onde a voz da humildade tempera a retórica da grandeza. É sobre esses alicerces de justiça, temperança e caridade que se poderá, com razão, aspirar ao título de nação que realmente semeia a paz.

Fonte original: Estadão

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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