A cena política alemã apresenta um paradoxo que desafia a reta razão e a coesão social: quanto mais um partido de ascendência rápida é denunciado como ameaça à ordem, mais ele parece solidificar seu apoio popular. A Alternativa para a Alemanha (AfD), ao bater um recorde nas pesquisas de opinião, não sinaliza apenas uma mudança aritmética no panorama eleitoral, mas expõe uma fratura profunda na legitimidade percebida das instituições e partidos estabelecidos. O clamor por “medidas preventivas” e o “cordão sanitário” imposto pelos democratas-cristãos, verdes e social-democratas, embora compreensível em face de discursos extremistas, corre o risco de converter um sintoma em causa, negligenciando a verdadeira enfermidade que nutre o descontentamento.
Os fatos são inegáveis: a pesquisa do INSA indica a AfD com uma vantagem de sete pontos sobre o bloco democrata-cristão. Ministros do Interior de estados como Turíngia e Brandemburgo expressam temores legítimos sobre a segurança, a lealdade às instituições democráticas e a possível infiltração de informações confidenciais para “Estados autoritários ou círculos extremistas de direita”, especialmente dada a classificação da seção da AfD na Saxônia-Anhalt como “comprovadamente de extrema-direita” pelo serviço de inteligência. A cautela, nesse aspecto, é dever de quem zela pela coisa pública.
No entanto, a estratégia de demonização total e o isolamento sistemático de um partido que angaria a preferência de uma parcela crescente do eleitorado podem ser uma loucura lógica, como Chesterton nos alertaria. A intenção de proteger a democracia da ameaça extremista, ao recusar qualquer diálogo ou coalizão, pode inadvertidamente legitimar a narrativa do próprio partido isolado, que se apresenta como a única voz contra um “establishment” surdo e monolítico. Essa recusa em enxergar o eleitor por trás do rótulo reduz o “povo” a uma “massa” a ser contida, e não a cidadãos com preocupações que, ainda que expressas de forma equivocada, demandam escuta e resposta, como Pio XII nos ensinou em sua distinção.
A verdadeira questão que se impõe à Alemanha não é meramente como conter a AfD, mas sim como os partidos tradicionais tencionam reconquistar a confiança de milhões de eleitores que se sentem abandonados. É uma falha na justiça social quando as ansiedades sobre a imigração, os custos da transição energética, a segurança e a estagnação econômica não encontram eco ou solução crível nas plataformas dos governantes. O princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja, nos lembra que as soluções devem surgir o mais próximo possível das pessoas. Quando o Estado, ou os corpos políticos intermediários, falham em responder a essas preocupações básicas, abrem-se as portas para que forças radicais se apresentem como as únicas alternativas viáveis.
Não se trata de relativizar o perigo real do extremismo, mas de discernir com prudência a raiz do problema. É lícito e necessário que os órgãos de segurança monitorem grupos que, comprovadamente, ameacem a ordem constitucional ou tenham laços com regimes autoritários. Contudo, essa vigilância não pode substituir a ação política que endereça as causas do descontentamento. A exclusão de um partido com votos, sem que se ofereça um projeto de futuro que ressoe com a população, pode gerar uma ingovernabilidade ainda mais profunda e corrosiva do que os riscos que se pretende evitar.
O caminho para restaurar a saúde da vida cívica alemã não reside apenas em erguer muros de isolamento, mas em construir pontes de verdade e responsabilidade. Exige dos líderes que não se contentem com a simples condenação, mas que apresentem propostas concretas para as dificuldades reais dos cidadãos, fortalecendo a vida comunitária e os corpos intermediários da sociedade. Somente uma política que compreenda a complexidade da alma do povo, em vez de rotulá-lo, poderá reconstruir os alicerces de uma república que se quer justa e livre.
Fonte original: CartaCapital
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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