Um corpo político saudável não é uma máquina de guerra entre facções, nem um balcão de negócios para a distribuição de espólios. É uma rede viva de deveres e direitos, onde cada membro contribui para a vitalidade do todo. Mas o cenário eleitoral que se desenha no Acre, com suas alianças voláteis e negociações opacas, sugere que essa vitalidade foi trocada por um jogo de cadeiras, onde o bem do corpo parece secundário à sobrevivência dos estrategistas. A política, reduzida a um xadrez de barganhas e projeções eleitorais, afasta-se da sua nobre finalidade de edificar a ordem justa e transparente para a vida comum.
A lógica das alianças é apresentada como a própria essência do processo, mas pouco se fala dos princípios que as animam ou dos programas que as sustentam. “Fontes importantes do governo” e “pesquisas de bastidores” não registradas tornam-se oráculos que guiam as decisões, em detrimento da clareza e do debate público. Quando a costura de uma chapa se sobrepõe à formulação de propostas concretas para a educação, a saúde ou o desenvolvimento local, a política perde sua alma. O que fica é a casca de um processo democrático esvaziado, onde o cidadão é chamado a votar, mas não a discernir entre visões substantivas para o futuro da comunidade.
É nesse ponto que a Doutrina Social da Igreja se ergue como um farol. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, adverte contra um Estado que, em vez de servir, se torna um fim em si mesmo, um Leviatã a ser conquistado e repartido. A “política de balcão” não é senão uma forma insidiosa de estatolatria, onde o poder, mais do que a função de serviço, é o objeto de veneração e de cobiça. Não se trata de uma estratégia legítima, mas de uma deformação da virtude da justiça, que exige que os arranjos políticos visem à equidade e à verdade, não ao mero controle. A realeza social de Cristo, que se expressa na ordenação justa de todas as coisas para o bem supremo do homem, é subvertida quando a única realeza visível é a do interesse particular travestido de bem comum.
A judicialização de figuras proeminentes, como o julgamento do ex-governador Gladson Cameli no STJ, adiciona uma camada de incerteza e, paradoxalmente, de instrumentalização. Em vez de um processo estrito de aplicação da lei, o desfecho judicial pode se converter em mais uma peça no tabuleiro das alianças, um fator de barganha ou desestabilização. Isso corrói a confiança nas instituições, lançando sombras sobre a própria imparcialidade da justiça. Onde a veracidade é eclipsada pela conveniência tática, a ordem moral pública se fragiliza, e o povo, como alertava Pio XII, tende a ser reduzido a massa, um aglomerado informe a ser guiado pelos artifícios da cúpula, e não um conjunto de cidadãos conscientes, participantes e corresponsáveis.
Essa perpetuação de nomes e famílias, por sua vez, embora não seja intrinsecamente má, torna-se um problema quando inibe a renovação e a diversidade. A ausência de um interlocutor oficial do governo, reclamada pelos políticos locais, longe de ser um detalhe administrativo, revela a centralização do poder e a falta de canais transparentes de diálogo. O “comedimento” da campanha, que uma fonte atribui à governadora Mailza Assis, pode significar uma prudência salutar, mas também pode disfarçar a carência de propostas audaciosas e de uma visão robusta para os desafios complexos do Acre. A política, para ser virtuosa, precisa de clareza de intenções, firmeza de princípios e a coragem de apresentar soluções, não apenas de gerenciar expectativas ou acomodar interesses.
A recusa de um partido como o MDB em aceitar cargos no governo pode ser interpretada como um gesto de integridade, ou, no intrincado jogo que se narra, como um posicionamento estratégico para futuras disputas, mesmo após se beneficiar de uma aliança. Essa ambiguidade, intrínseca à “política de balcão”, impede o eleitor de discernir genuínos compromissos programáticos de meras articulações de poder. A primazia da justiça exige que a política seja um instrumento de serviço, e não um fim em si mesmo para a manutenção de estruturas e a satisfação de ambições pessoais.
A verdadeira política, então, não se mede pela astúcia das alianças nem pela contabilidade de cargos. Ela se revela na integridade dos propósitos, na clareza dos programas e na coragem de servir a um corpo político que, em vez de massa a ser manipulada, seja sempre um povo vivo, digno e soberano.
Fonte original: ac24horas.com – Notícias do Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.