Um encontro de chefes de Estado, por vezes, mais parece um grande palco diplomático onde se exibem intenções nobres e acordos múltiplos. A recente visita do presidente brasileiro à Espanha, coroada por uma vasta lista de pactos bilaterais, desde o apoio a microempreendedores até a cooperação em minerais estratégicos, a regulação de plataformas digitais e o combate ao feminicídio, desenha um quadro de intensa colaboração. A retórica oficial é de convergência, de “valores compartilhados” e de uma “união decisiva” para pautas globais. Mas por trás da fachada polida, o Polemista Católico precisa inquirir: será esta uma parceria de justiça e veracidade, ou uma sofisticada reedição de antigas assimetrias?
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, nos ensina a olhar para as relações entre as comunidades políticas não como meros arranjos de poder, mas como teias de deveres recíprocos ordenados ao bem comum. A Espanha, celebrada como um dos maiores investidores no Brasil, com dezenas de projetos no Programa de Parcerias e Investimentos que somam bilhões, parece consolidar uma posição de exportadora de capital, ao passo que o Brasil, em grande medida, se apresenta como receptor e mercado. Embora o investimento seja vital, a questão essencial é: este capital promove o desenvolvimento local sustentável, a agregação de valor e a propriedade difusa, ou apenas a exploração de recursos e o lucro fácil? A verdadeira solidariedade não se manifesta na subordinação de uma parte à outra, mas na cooperação orgânica onde cada nação pode florescer em sua autonomia, fortalecendo seus corpos intermediários e sua capacidade de iniciativa.
A transferência unidirecional de tecnologia, como o compartilhamento do software “Sistema Rapina” ou a aspiração de importar o sistema espanhol de monitoramento de vítimas, levanta preocupações legítimas sobre a soberania digital e de dados. A adesão acrítica a modelos externos, por mais bem-intencionados que sejam, pode negligenciar as particularidades do contexto social e legal brasileiro. A Espanha pode ter êxito em reduzir feminicídios em X por cento – o presidente brasileiro citou números discrepantes na mesma fala, 65% e 30%, o que já denuncia uma preocupante falta de veracidade no discurso oficial que antecede os acordos – mas a eficácia de replicar sistemas sem a devida adaptação local é, no mínimo, duvidosa. Um progresso tecnológico que não respeita a cultura e a especificidade do “povo” em oposição à “massa” (na feliz distinção de Pio XII) não é um avanço genuíno, mas uma colonização branda.
A discussão sobre a regulamentação do trabalho por plataformas e o fim da jornada “seis por um” são pautas de justiça social inegável, tocando na dignidade do trabalho e no direito ao descanso. Contudo, a aplicação de tais princípios exige um discernimento político (a prudência da arte de governar) que equilibre a proteção do trabalhador com a viabilidade econômica, evitando que a busca por uma solução importe mais problemas que benefícios. Em temas tão cruciais, a verdade se exige não apenas na retórica, mas nos dados, na transparência curricular dos acordos, nos custos e benefícios efetivos para todas as partes da sociedade, e não apenas para o grande capital ou o Estado centralizador.
O que se apresenta como cooperação multilateral e intercâmbio de soluções, sob a lupa da doutrina, revela uma tendência perigosa: a de importar soluções prontas e capital externo sem o devido desenvolvimento de capacidades internas e o fortalecimento da subsidiariedade em todos os níveis. É como se, na pressa de “cooperar”, nos esquecêssemos de edificar a casa com tijolos e cimento próprios, aceitando meros revestimentos. O paradoxo é que, ao abraçar o que se apresenta como moderno e eficiente, podemos estar apenas aprofundando dependências estruturais.
O Brasil, para de fato se erguer como uma nação soberana e justa, precisa de parcerias que enalteçam sua própria capacidade de inovar, de construir, de regular e de proteger seus cidadãos, com base em seus próprios valores e necessidades. A mera importação de modelos ou a atração de capital sem a correspondente agregação de valor e a garantia da propriedade com função social dos seus recursos – minerais estratégicos incluídos – reduz o horizonte de um destino comum a uma via de mão única. A cooperação internacional, para ser verdadeiramente frutuosa, não pode ser um disfarce para a reedição de lógicas de dependência, mas um exercício de magnanimidade mútua, onde cada parte contribui com sua genuína força para o bem de todos, e não com a mera aceitação do que lhe é imposto.
Em um tempo de tantos acordos e pouca substância, a verdadeira amizade entre as nações se prova não na quantidade de papéis assinados, mas na capacidade de construir uma casa comum onde a dignidade de cada povo seja o pilar e a justiça o teto.
Fonte original: Governo do Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.