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Voto nulo: o acerto político de Evo Morales – Diário Causa Operária

🟢 Análise

O cheiro de fumaça de pneus queimados e o clamor das ruas bolivianas, tomadas por bloqueios e greves, compõem a paisagem de uma nação em ebulição. O epicentro da discórdia, aparentemente, reside numa eleição: a de 2025, que viu a exclusão de Evo Morales da disputa presidencial e a ascensão de Rodrigo Paz, encerrando quase duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS). No rastro dessa reviravolta, mais de 1,2 milhão de eleitores anularam seus votos, superando a marca de 19%, e agora, a Bolívia se vê mergulhada numa crise que muitos interpretam como a validação da “política correta” de Evo.

É legítimo, sem dúvida, levantar o questionamento sobre a justiça de um processo eleitoral que impede a participação de um líder político proeminente, especialmente após um evento como a queda de Morales em 2019 sob pressão militar e policial. A dúvida sobre a imparcialidade das instituições, o risco de uma polarização ainda maior e a erosão da confiança no sistema democrático são preocupações sérias que nenhum observador honesto pode ignorar. O povo, com razão, anseia por uma ordem que não apenas funcione, mas que seja percebida como justa e acessível a todos.

Contudo, é preciso ir além da indignação imediata e perguntar com clareza: qual é a finalidade última de uma ação política? O propósito da vida comum não é a vitória retórica nem a reafirmação narcísica de um líder, mas a edificação da paz social, da estabilidade e do bem concreto dos cidadãos. E aqui, a estratégia do voto nulo, por mais que tenha sido gestada em um sentimento de revolta contra uma exclusão percebida como injusta, precisa ser julgada não por sua intenção, mas por seus frutos.

São Tomás de Aquino nos ensina que o bem comum é a causa final da lei e da política. Ora, se uma estratégia, mesmo que nascida de uma denúncia de ilegitimidade, resulta na eleição de um governo de direita (Rodrigo Paz), no aprofundamento da instabilidade e no sofrimento direto da população por conta de confrontos e paralisações, é imperativo questionar a sua justiça e responsabilidade. A exclusão de um candidato não autoriza, por si só, uma via de ação que se revela infrutífera ou, pior, contraproducente para os próprios trabalhadores e camponeses que o líder pretende defender.

A adesão maciça ao voto nulo pode ter sido um grito de descontentamento e lealdade a Evo Morales, sim, mas como um movimento estratégico, ela falhou em apresentar uma alternativa construtiva. Ao invés de fortalecer um bloco progressista em torno de outro nome ou plataforma que pudesse enfrentar a direita nas urnas, a estratégia de Morales esvaziou as urnas de um voto propositivo. Ela não “validou” a resistência popular, mas, inadvertidamente, facilitou a ascensão do governo de Paz e o subsequente cenário de crise que hoje se tenta justificar como prova de acerto. Chesterton, com sua sanidade peculiar, diria que há uma loucura lógica em tentar resolver um problema ao abandonar o campo de batalha, garantindo a vitória do adversário e então apontar para a vitória dele como prova da própria razão.

A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem insistido na importância da liberdade ordenada, do papel dos corpos intermediários – como a Central Obrera Boliviana e os mineiros – e na primazia do bem da sociedade sobre quaisquer projetos partidários ou pessoais. A crítica à estatolatria e a defesa da subsidiariedade nos lembram que a solução dos problemas não reside apenas na figura de um líder carismático, mas na capacidade orgânica de uma sociedade de construir instituições sólidas e de participar ativamente no processo político, buscando soluções que, de fato, avancem na dignidade da pessoa humana e na ordem justa.

O juízo final, portanto, é inevitável. A política do voto nulo, na Bolívia de 2025, foi um erro estratégico. Embora tenha expressado uma dor genuína e um descontentamento válido com a exclusão de um líder, ela não ofereceu um caminho fecundo para a restauração da ordem ou para a defesa dos mais vulneráveis. Ao contrário, ao criar um vácuo e intensificar a polarização, ela contribuiu para a instabilidade que hoje aflige o povo boliviano. A verdadeira liderança, em momentos de crise, não se mede pela capacidade de protesto, mas pela audácia de construir, mesmo em meio à adversidade, os pilares de uma cidade mais justa e solidária.

A história nos lembra que a grandeza de um povo se revela não pela intensidade de suas queixas, mas pela persistência em buscar a reta ordem, mesmo quando os caminhos são tortuosos.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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