O rótulo “terrorista”, quando aposto a um grupo, arrasta consigo um peso não apenas jurídico, mas moral e estratégico, capaz de alterar a face das relações internacionais e das políticas de segurança interna. Recentemente, a decisão dos Estados Unidos de aplicar essa designação ao Comando Vermelho e ao PCC provocou reações diversas, entre elas a análise mordaz do líder do PCO, Rui Costa Pimenta. Se, por um lado, há uma preocupação legítima com a soberania nacional e os riscos de ingerência estrangeira, por outro, a tentação de enxergar em cada movimento geopolítico a trama monolítica do “imperialismo” e de “lobbies sionistas” cega a inteligência para a complexidade da realidade e obscurece a busca por uma ordem justa.
O Magistério da Igreja, em sua Doutrina Social, ensina-nos a ver o Estado como uma ordem para o serviço dos cidadãos, e não como um fim em si. Pio XI, em Quadragesimo Anno, já alertava para os perigos da estatolatria, da concentração de poder que asfixia os corpos intermediários da sociedade. No entanto, rejeitar toda e qualquer cooperação internacional como “demolição da soberania”, como Pimenta sugere, é confundir o necessário discernimento diplomático com um isolacionismo perigoso. Grupos criminosos transnacionais como o PCC e o Comando Vermelho operam além das fronteiras físicas e jurídicas dos Estados, utilizando táticas que, embora nem sempre ideologicamente motivadas, empregam o terror e a violência para fins de controle e lucro, exigindo, sim, uma resposta que transcenda a capacidade de uma única nação. Não se trata de aceitar passivamente imposições externas, mas de construir, com justiça e veracidade, mecanismos de defesa que protejam a vida comum.
A preocupação de que a classificação de terrorismo leve a um aumento desproporcional do encarceramento de populações vulneráveis, sem atacar as raízes sociais do crime, é um ponto crucial e que merece toda a nossa atenção. De fato, a fé nos ensina que a repressão penal, embora necessária para a manutenção da ordem, não substitui a justiça social. É preciso ir à causa, à profunda crise social que serve de terreno fértil para a criminalidade organizada. A propriedade tem uma função social, o trabalho deve ser digno e a vida em comunidade deve oferecer as condições para que nenhum homem seja reduzido à massa amorfa manipulável, como Pio XII advertia. Ignorar essa dimensão é ver o problema apenas na superfície, ou, pior, atribuir toda a culpa a um “inimigo” abstrato, como o “imperialismo”.
Aqui reside o perigo do reducionismo. Pimenta desenha um mapa onde cada rio e cada montanha são explicados por uma única força motriz: o imperialismo capitalista e seus “lobbies”. A eleição de governos de direita na América Latina, a ajuda humanitária a um governo boliviano ideologicamente diverso, e até o complexo conflito israelo-palestino, tudo se subsume a uma conspiração onipresente. Essa visão maniqueísta, que destrói a autonomia dos povos e líderes e nega a multifacetada agência da história, impede o reto juízo. Reduzir a existência e as ações do Estado de Israel a uma mera “operação econômica” dos britânicos, ignorando as milenares raízes históricas, religiosas e identitárias de todas as partes envolvidas no conflito, é desumanizar e simplificar de modo perigoso.
A liberdade de expressão, pilar de toda sociedade que busca a verdade, não é um salvo-conduto para o discurso de ódio ou para a negação da dignidade alheia. Há uma diferença substancial entre a crítica política legítima a governos e instituições e a atribuição de males sociais a grupos étnicos ou religiosos específicos, especialmente quando tal atribuição incorre em acusações que a lei penal tipifica. A alegação de “perseguição implacável” por um “lobby sionista” contra “análises políticas” exige um exame detido, não para silenciar a crítica, mas para discernir entre a crítica honesta e a incitação ao preconceito. A sanidade contra a loucura lógica das ideologias, como Chesterton nos mostraria, está em reconhecer a realidade em sua complexidade, em resistir à tentação de encaixar todos os fatos em um espartilho ideológico.
Portanto, o desafio não é menosprezar as legítimas preocupações com a soberania ou com as raízes sociais do crime, mas sim abordá-las com uma visão que não se dobre ao simplismo ideológico. Uma nação forte e soberana é aquela que sabe dialogar, cooperar e defender seus interesses no cenário global sem, contudo, cair na armadilha da vitimização perpétua ou da paranoia conspiratória. A justiça pede que combatamos o crime e suas causas profundas, e a veracidade exige que o façamos com os olhos abertos para a realidade em toda a sua inesgotável e, por vezes, incômoda, complexidade.
Não é com mapas de linhas retas e inimigos claros que se navega o terreno tortuoso do mundo, mas com a bússola da reta razão e a estrela-guia da verdade, custe o que custar.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.