O chão de Tel Aviv, que viu milhares de israelenses se reunirem em protesto, não é apenas um palco para a insatisfação política; é uma clareira onde se digladiam as tensões mais profundas de um povo posto à prova. Ali, entre cartazes que clamam por eleições antecipadas e uma política mais pacífica, reside uma demanda inegável por justiça – não apenas a justiça distributiva ou a legal, mas a que se exige de uma liderança no dever sagrado de proteger seu povo.
É legítima a apreensão dos cidadãos que pedem uma comissão de inquérito para apurar as falhas na prevenção ao ataque de 7 de outubro. A tragédia brutal daquele dia abriu uma chaga, e a primeira obrigação de qualquer governo é a segurança dos seus. Quando essa falha é percebida, a exigência de veracidade na responsabilização e de competência na gestão se impõe com força irreprimível. Há uma moralidade pública que espera que os que exercem o poder respondam por seus atos e omissões, particularmente quando vidas inocentes são ceifadas.
Contudo, a superfície visível das demandas nem sempre revela a correnteza subterrânea das motivações. Se, de um lado, a insatisfação com a gestão de Benjamin Netanyahu e a preocupação com a integridade democrática são reais e palpáveis, de outro, a exigência por uma “política mais pacífica” para a região ou o fim da expansão de assentamentos se mescla com um contexto pós-7 de outubro que reordena as prioridades. Para uma parte significativa da população, o trauma vivido reafirma a necessidade de políticas de segurança assertivas, por mais controversas que sejam, e torna o apelo por concessões territoriais uma proposta de altíssimo risco. A Doutrina Social da Igreja, ao falar da liberdade ordenada (Leão XIII) e da propriedade com função social, jamais desvincula o direito à terra da responsabilidade pela segurança e pela ordem.
A questão dos assentamentos na Cisjordânia, território reivindicado pelos palestinos para um futuro Estado, é um nó górdio que tensiona as relações internacionais e a consciência moral. O parecer consultivo do mais alto tribunal das Nações Unidas, ainda que não vinculante e contestado por Israel, lança uma sombra sobre a legalidade da ocupação, ecoando uma dimensão de justiça que transcende as fronteiras nacionais e as urgências securitárias imediatas. Não se pode ignorar que a manutenção e expansão dos assentamentos impõem um custo humano e uma instabilidade persistente à região, desconsiderando a dignidade e os direitos dos povos ali presentes.
Os protestos, embora pacíficos e autorizados, revelam a dificuldade de encontrar um solo firme para a paz e a estabilidade. A verdadeira solução não pode ser construída apenas sobre a areia movediça da insatisfação política imediata, nem sobre a intransigência que ignora a realidade complexa dos direitos e deveres de todos os envolvidos. A realeza social de Cristo, como ensinava Pio XI, exige que a ordem temporal se paute pela justiça e pela caridade, buscando o bem comum de forma integral, sem reduzir a segurança à mera força bruta ou a paz a uma capitulação desprotegida.
O desafio de Israel, portanto, não é apenas resolver uma crise de governança ou responder a um clamor por mais “paz”. É o de discernir, com prudência, onde a legítima defesa se encontra com a exigência de justiça para com o outro, e como se constrói uma ordem que garanta a segurança sem sacrificar os princípios de direito e moral. Isso requer não só a veracidade na autocrítica, mas também a fortaleza para buscar um caminho que honre o passado sem comprometer um futuro mais justo.
A segurança duradoura não se consolida apenas com fronteiras vigiadas, mas com pontes de justiça e veracidade erguidas sobre um alicerce de paz bem ordenada.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.