A estabilidade, muitas vezes elogiada como virtude cardinal da boa governança, pode degenerar na mais perigosa das ilusões quando a realidade ao redor desmorona. É este o paradoxo que se desenha no Reino Unido, onde Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista e primeiro-ministro, insiste em não renunciar após derrotas locais e regionais que revelam uma hemorragia de votos em múltiplas direções. A retórica de “não se troca o piloto durante o voo” soa oca quando a aeronave está perdendo altitude rapidamente e os passageiros saltam tanto para bombordo quanto para estibordo, buscando refúgio no Reform UK à direita e no Partido Verde à esquerda.
Os fatos são implacáveis. Menos de dois anos após uma “vitória esmagadora”, a popularidade de Starmer mergulhou. Investidores manifestam impaciência com o crescimento econômico letárgico, e parlamentares trabalhistas expressam frustração com a ausência de resultados concretos. Em antigos redutos, como Hartlepool e Havering, o Reform UK avança com seu discurso antiestablishment, enquanto o “eco-populista” Partido Verde seduz eleitores desencantados. A política britânica, outrora bipolar, fragmenta-se sob o peso de um descontentamento que não encontra eco numa liderança aparentemente imune à autocrítica.
Aqui, a virtude da veracidade é posta à prova. A recusa em reconhecer a gravidade da erosão eleitoral e a falência da estratégia atual não é sinal de resiliência, mas de uma obstinação que beira a negação do real. A liderança que se apega a um curso que manifestamente falha em reter sua base, e que não oferece uma visão coesa para um eleitorado cada vez mais polarizado, demonstra uma falta de humildade perante os sinais inequívocos da realidade. O bom governo, como nos ensina a Doutrina Social da Igreja, exige que a autoridade legítima se baseie nos fatos e na busca incessante do bem comum, e não na manutenção do poder por si mesmo.
Pio XII, em sua advertência contra a massificação, distinguia o “povo” – um corpo social orgânico, com coesão e propósito – da “massa” – uma coleção amorfa de indivíduos, facilmente manipulável ou, como neste caso, dispersa e frustrada. Uma liderança que não consegue mais dialogar com seu povo, mas apenas com uma imagem idealizada de seu eleitorado, acaba por presidir uma massa que se desagrega. Quando os corpos intermediários da sociedade, como os partidos políticos, perdem a capacidade de representar e mediar os anseios populares, a justiça política é comprometida, e o tecido social se fragiliza.
A exigência por “mudanças profundas” e “resultados tangíveis”, vinda tanto de investidores quanto de parlamentares, não é mero capricho. É um clamor por laboriosidade e responsabilidade na gestão pública. A propriedade com função social, defendida por Leão XIII, e a própria organização econômica de uma nação dependem de uma governança capaz de gerar prosperidade e estabilidade. A lentidão e a ausência de respostas concretas alimentam a desconfiança e a percepção de que o governo está mais preocupado em preservar a face do que em servir o país.
A fragmentação da política britânica, com nenhum partido conseguindo um domínio claro, exige mais do que a mera teimosia na rota. Exige uma reorientação prudente, um olhar atento à “liberdade ordenada” que permite a coexistência de diversas forças sem cair na anarquia ou na tirania de um centro desconectado. O que está em jogo não é apenas o destino de um partido, mas a própria coesão de uma nação que, sem uma liderança verdadeira e humilde, corre o risco de desviar-se em busca de portos cada vez mais distantes e radicais.
Navegar em águas tão turbulentas não é apenas manter o leme firme, mas ter a sabedoria de ler as nuvens, ajustar as velas e, se preciso, reconhecer a necessidade de um novo mapa.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.