A notícia de que o governo dos Estados Unidos classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas chegou ao Brasil não como uma súbita revelação, mas como uma brasa incandescente lançada sobre um barril de pólvora política. O timing não poderia ser mais propício para acirrar os ânimos eleitorais, transformando uma questão de segurança nacional em palco para o jogo miúdo da conveniência partidária, com o senador Flávio Bolsonaro a reivindicar a autoria do pedido e o governo brasileiro a modular sua resposta diplomática. A dimensão da manobra, sem precedentes em um ano eleitoral tão crucial, levanta a preocupação legítima sobre a interferência externa na soberania nacional.
Contudo, antes de erguermos a bandeira do ultraje soberano, é preciso examinar a ferida real que essa intervenção, por mais questionável que seja em seus motivos e modos, apenas expõe. As facções em questão não são meros grupos criminosos de bairro; são estruturas com alcance transnacional, que corroem a ordem pública, controlam territórios, extorquem cidadãos, traficam armas e drogas e, em muitos aspectos, operam como um Estado paralelo dentro das fronteiras brasileiras. A discussão sobre a “soberania” brasileira diante de uma classificação externa se torna, assim, um paradoxo amargo: a soberania já não estaria em xeque pela incapacidade interna de debelar esses corpos estranhos que gangrenam o corpo da nação?
São Tomás de Aquino, com sua lucidez sobre a ordem dos bens, nos ensina que a autoridade política existe para assegurar o bem comum, a paz e a justiça. O Estado, embora legítimo em sua autonomia, tem o dever de proteger seus cidadãos. Quando essa proteção falha, quando grupos criminosos adquirem poder de desestabilização e exercem violência sistemática, a própria ideia de uma “liberdade ordenada”, tão cara a Leão XIII, é comprometida. A crítica de Pio XI à estatolatria serve também para lembrar que a autoridade do Estado, por ser legítima, não é inquestionável em sua eficácia, e a denúncia da massificação por Pio XII ressoa quando populações inteiras são subjugadas pelo medo e pela extorsão.
É por isso que a resposta brasileira a essa classificação não pode ser puramente defensiva ou politicamente conveniente. É preciso que seja guiada pela justiça e pela veracidade. Justiça para os milhares de brasileiros que sofrem diariamente sob o jugo dessas facções; e veracidade para reconhecer que a ameaça é real, preexistente e não um mero artifício diplomático americano. Reduzir a questão a um “favor eleitoral” ou a uma mera “intervenção militar” iminente, sem antes reconhecer a falha interna que permitiu tal cenário, seria um reducionismo perigoso, uma forma de varrer para debaixo do tapete a própria ineficácia.
A verdadeira afirmação da soberania passa pela capacidade de autogoverno eficaz. O princípio da subsidiariedade nos recorda que as comunidades e os indivíduos devem ter a liberdade e a capacidade de resolver seus problemas mais próximos, e que o Estado deve apoiar, não suprimir. No plano internacional, isso significa que o Brasil deve ter a capacidade de combater suas próprias ameaças internas e, quando a ameaça transcende fronteiras, buscar cooperação em termos que fortaleçam, e não diminuam, sua própria agência. A recusa em dialogar ou em capitalizar ferramentas de cooperação internacional para sancionar ativos ilícitos dessas facções, sob o pretexto exclusivo da ofensa à soberania, pode ser um tiro no próprio pé.
A nação precisa de uma estratégia robusta, que vá além das disputas eleitorais e da retórica vazia. Urge um plano que, com magnanimidade, encare a realidade sem ingenuidade, reforce suas instituições de segurança e inteligência, combata a lavagem de dinheiro e o financiamento do crime com seriedade, e reafirifique sua posição no cenário global com a autoridade de quem cuida da sua própria casa. Não se trata de endossar a medida externa, mas de usar a controvérsia para um urgente autoexame.
A segurança e a dignidade do povo não residem na negação teimosa de um problema, mas na coragem de enfrentá-lo com todos os meios lícitos e a serviço da verdade. O desafio que se impõe não é apenas diplomático, mas civilizacional.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.