A malha da rede digital, outrora tecida para conectar e informar, converte-se na Rússia de hoje em fio de arame farpado, dividindo o povo e cerceando liberdades sob o pretexto da segurança. Os fatos são claros: o cerco governamental a aplicativos essenciais e o bloqueio intermitente da internet geram um descontentamento palpável, que perpassa a sociedade, de cidadãos comuns e influenciadores de beleza a governadores e políticos de fachada. Há uma legítima preocupação com a perda de serviços vitais, a invasão da privacidade e o risco à vida de moradores que dependem do Telegram para alertas de ataques. A insatisfação, somada a uma economia fragilizada e impostos crescentes, corroeu a aprovação do líder russo.
O regime, todavia, parece operar com a frieza de um cirurgião que administra a dor sem pretender curar a doença. A “oposição sistêmica”, um teatro bem ensaiado para canalizar frustrações, serve mais como válvula de escape controlada do que como ameaça real. Votações contra as restrições da internet são rechaçadas pelo partido governista, e as moções da oposição se perdem no labirinto burocrático. Há um paradoxo na tentativa do Kremlin de sufocar a comunicação: ao cortar as pontes digitais, o Estado não só restringe a liberdade, mas revela a insegurança de seu próprio poder, que teme a livre circulação de ideias e a organização espontânea da vida social.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja oferece um discernimento essencial. Pio XII, ao diferenciar o povo da massa, advertia contra a desintegração dos corpos sociais e a redução dos indivíduos a meros objetos de controle estatal. Leão XIII, por sua vez, defendia a liberdade ordenada e a primazia da família e das associações sobre o Estado. A internet, em sua essência, é um instrumento de associação e comunicação, que permite ao povo articular sua voz, partilhar bens e organizar sua vida. Quando o Estado, invocando uma segurança abstrata, impede o acesso a ferramentas que se tornaram vitais para a subsistência e a integridade física de seus cidadãos — como os alertas de guerra na região de Belgorod —, ele não está exercendo a justiça, mas sim excedendo seus limites.
A justificação vaga de “segurança” para bloqueios digitais é um véu que esconde a falta de veracidade e de respeito à dignidade da pessoa humana. A migração forçada para plataformas nacionais, mais fáceis de monitorar, transforma a esfera digital em um panóptico onde a privacidade é uma ilusão e a espontaneidade, um risco. O espanto de figuras como Victoria Bonya ou a engenheira aposentada Svetlana, que descreve seu país como uma “prisão a céu aberto”, não é um mero desabafo político, mas o clamor por uma ordem onde a justiça e a transparência prevaleçam sobre o arbítrio. O fato de o porta-voz do Kremlin ter de responder a uma influenciadora ou de partidos como o “Novas Pessoas” ganharem projeção com a pauta da liberdade digital mostra que a panela de pressão, por mais controlada que seja, ainda chia.
Não se trata de confundir o descontentamento com o desejo de uma revolução. O que ocorre é a lenta erosão do contrato social implícito: a lealdade é testada quando o Estado, que deveria proteger, cerceia a própria capacidade de viver e comunicar. A queda na aprovação de Putin, por sete semanas consecutivas, não é apenas uma oscilação estatística; é um sintoma da perda de confiança, uma moeda social que, uma vez desvalorizada, é difícil de recuperar.
O governo russo pode conseguir absorver e redirecionar a insatisfação, isolando o líder de críticas diretas e evitando um colapso imediato. No entanto, a estratégia de silenciar as redes para controlar a narrativa é uma vitória pírrica. Subordinar a comunicação à segurança de um regime é pavimentar um caminho onde a paz social é mera ausência de protesto, e não a florescente ordem que a verdade e a justiça podem instaurar. É um cálculo pragmático, sim, mas com um custo moral que nenhuma estabilidade artificial pode compensar.
Fonte original: InfoMoney
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.