O Senado Federal, em um gesto que ecoa após mais de um século, rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O placar de 42 a 34 votos contra a nomeação não é apenas uma derrota política para o presidente Lula; é um sinal eloquente, e talvez incômodo, sobre o funcionamento de uma República que, em seus melhores momentos, opera pela tensão ordenada de seus poderes.
Para a mentalidade que se habituou a enxergar a política como mera luta de classes, o veredito do Senado logo se vestiu de “chantagem dos ricaços” ou “vitória da Faria Lima”. Mas essa leitura, ainda que útil para mobilizar bases, falseia a complexidade do real. Reduzir a ação de 81 senadores, com suas múltiplas origens, bases eleitorais e convicções, a um bloco monolítico movido por um único interesse econômico escuso é desprezar a inteligência e a autonomia de uma instituição essencial ao pacto federativo. É a substituição da verdade pública pela caricatura ideológica, que, como ensinaria Chesterton, é a forma mais perigosa de insanidade lógica: aquela que parte de uma premissa simplista para construir um universo conspiratório.
A Doutrina Social da Igreja, ao defender a subsidiariedade, lembra-nos que as instâncias superiores não devem esmagar nem absorver as funções que as instâncias inferiores podem desempenhar. O Senado, como poder intermediário entre o Executivo e o Judiciário na matéria das nomeações, exerce uma prerrogativa constitucional inalienável. Ao não ratificar uma indicação, ele não está necessariamente “chantageando”; está, sim, exercendo seu papel de freio e contrapeso, exigindo um perfil que dialogue com um espectro mais amplo de expectativas ou, no mínimo, uma articulação política mais robusta do proponente. Ignorar isso é minar a própria estrutura da liberdade ordenada, concebida por Leão XIII, que garante que nenhum poder se faça absoluto.
A derrota, nesse caso, revela menos uma conspiração exógena e mais uma falha de discernimento político e de construção de consenso interno. Um governo que aspira à estabilidade e à governabilidade não pode se furtar ao diálogo com as múltiplas forças que compõem o Congresso. A política, em sua essência, não se faz apenas com a vontade do governante ou a pressão das ruas, mas com a capacidade de tecer acordos, de reconhecer as diferenças legítimas e de oferecer soluções que integrem, na medida do possível, o bem da cidade. A agenda que se avizinha, com a análise do veto à dosimetria das penas e a mobilização do Dia do Trabalhador pela jornada 6×1, exige essa mesma capacidade de costura e de honestidade intelectual.
Não basta, portanto, atribuir reveses à mística de uma “elite” abstrata. É preciso olhar para a arte da política como ela é: um campo de negociação constante, de temperança e de reconhecimento do legítimo papel dos outros poderes. A justiça institucional não reside em um alinhamento automático de vontades, mas no respeito às regras do jogo e à autonomia dos atores. Deslegitimar o Senado em sua função é corroer os pilares da República e abrir espaço para a demagogia que, no fim, sempre transforma o povo em massa, passível de manipulação.
A rejeição de Messias não é o apocalipse, mas um lembrete. Uma República forte não se mede pela ausência de atritos entre seus poderes, mas pela capacidade de superá-los dentro das balizas constitucionais, sem apelar a narrativas que distorcem o real para justificar falhas. É a hora de fortalecer o que está perto, de construir pontes, e de restaurar a confiança nos corpos vivos da sociedade, incluindo suas instituições representativas.
A reconstrução de uma ordem justa exige a verdade dos fatos e a coragem de reconhecer que o verdadeiro poder reside na solidez das instituições, e não na retórica que as desmancha.
Fonte original: Blog do Esmael
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.