A fachada das Lojas Pernambucanas, com seu letreiro que por décadas pontuou a paisagem de tantas cidades brasileiras, sempre evocou a solidez de um império construído com engenho e visão. Da produção de pólvora em 1866 à tecelagem em Paulista e, finalmente, à vasta rede varejista, os Lundgren souberam integrar o fazer com o vender, quebrando intermediários e oferecendo “bons tecidos” a preços fixos, algo revolucionário para o Brasil do início do século XX. O “capitão” Arthur Lundgren, por mais de seis décadas, pilotou o navio com mão firme, expandindo a marca a ponto de tornar-se a maior rede de varejo do país em meados do século. Uma história de progresso e resiliência que, à primeira vista, parece tecida apenas com os fios da inovação e do trabalho.
Contudo, ao desenrolar essa trama histórica, percebe-se que nem todos os fios são igualmente nobres. A edificação da Companhia de Tecidos Rio Tinto e de suas “cidades-fábrica” em Paulista e na Paraíba, embora celebrada como um ato de “plantar gente” e criar uma “Manchester” nordestina, implicou um controle social que transbordava os limites razoáveis do ambiente de trabalho. Moradia, lazer e até mesmo os contatos externos dos trabalhadores eram cerceados, buscando prevenir o “contágio” por “ambientes degradantes”. Décadas se passaram para que o governo da Paraíba desapropriasse em 2022 as cerca de 700 moradias que ainda pertenciam à empresa ou seus descendentes em Rio Tinto. Essa longa dependência habitacional, somada ao controle quase total sobre a vida operária, evidencia uma profunda assimetria de poder que desafia a reta ordenação da vida em sociedade, desconsiderando a autonomia devida a cada pessoa e as associações livres, elementos caros à doutrina social da Igreja.
Mais espinhosa é a questão do envolvimento com o regime nazista. Pesquisas históricas apontam para a existência de uma “subfilial” do Partido Nazista em Rio Tinto e para a definição do complexo industrial como um “reduto de atividades nazistas” pela polícia política. Embora haja quem refute as acusações como manobra política da Era Vargas, a mera possibilidade de tal vinculação em solo brasileiro, na esteira de uma propaganda nazista que se infiltrava mesmo por vias oficiais, exige da empresa uma clareza e uma honestidade históricas que superem a mera dissociação genérica. A memória de uma empresa, assim como a de uma nação, precisa ser enfrentada em sua totalidade, sem filtros convenientes, para que o passado não contamine, de formas sutis, o presente e o futuro.
Os desafios atuais da Pernambucanas — a margem Ebitda apertada, a alta rotatividade de CEOs e a “cadeia decisória confusa” — são frequentemente atribuídos a falhas de gestão e a uma adaptação tardia à era digital. No entanto, o melhor argumento crítico sugere que essas dificuldades não são meros tropeços contemporâneos, mas a manifestação de uma cultura organizacional forjada em um passado de controle paternalista e de gestão familiar centralizada. Uma empresa que se habituou a gerir a vida completa de seus colaboradores, exercendo um poder quase absoluto, encontra maior dificuldade em descentralizar, em ser transparente e em permitir que a livre iniciativa de seus quadros se desenvolva plenamente, conforme o princípio da subsidiariedade.
É louvável que a Pernambucanas, em sua “nova marca corporativa”, afirme pautar suas decisões por princípios de ética, transparência, respeito, diversidade e inclusão. Mas a retórica precisa ser sustentada por um exame profundo de sua própria herança. A verdadeira justiça social na ordem profissional não se constrói apenas com códigos de conduta modernos, mas com a superação das raízes de uma lógica de controle que, em nome de uma eficiente “colmeia operária”, subverteu a dignidade da pessoa.
A trama de uma empresa centenária não se desfaz, mas se refaz a cada dia, ponto a ponto. O futuro das Pernambucanas dependerá não apenas de sua capacidade de inovar em vendas e tecnologia, mas de uma autêntica conversão histórica: de um legado de controle a uma cultura de colaboração, de uma narrativa seletiva a uma veracidade completa, e de um sucesso erguido sobre assimetrias a uma prosperidade fincada na dignidade de todos os envolvidos.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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