Em um país onde a realidade do crime organizado se manifesta com brutalidade nas ruas, a tentação de simplificar o problema com um rótulo estrangeiro é compreensível, mas perigosa. A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, embora possa soar como um passo firme contra a violência, rapidamente se tornou combustível para uma disputa política interna, obscurecendo a gravidade do desafio e a essência da soberania nacional.
A euforia de alguns setores políticos brasileiros diante da medida americana, alardeada como “golaço” e mérito de articulações individuais, revela mais sobre as agendas eleitorais do que sobre uma solução real para a chaga do crime. Reduzir a complexidade de facções com raízes profundas no tecido social e econômico do Brasil a um mero “terrorismo” externo, ou atribuir a um pré-candidato o poder de mover a diplomacia de uma potência global, é uma deslealdade com a inteligência do povo e um desvio do debate substantivo. As fotos com influenciadoras sob investigação criminal usadas para atacar adversários políticos, enquanto se celebra uma decisão estrangeira, são o epítome de uma polarização que infantiliza a política pública.
A verdadeira `justiça` exige, antes de tudo, a correta nomeação do mal. Segundo a Doutrina Social da Igreja, o Estado, conforme ensina Leão XIII, tem o dever primordial de garantir a `liberdade ordenada` e proteger o `bem da cidade` contra ameaças internas. Pio XII, ao distinguir o `povo` da `massa`, alertava para os perigos da manipulação e da perda da autonomia. A diplomacia brasileira tem razões consistentes, alinhadas à ONU, para diferenciar o crime organizado – com suas lógicas de tráfico, território e lucro – do terrorismo, que busca objetivos políticos ou ideológicos por meio da violência indiscriminada para gerar terror. Não é um “lobby pró-crime” recusar uma definição que pode ter implicações jurídicas e econômicas imprevistas e, acima de tudo, minar a soberania.
Há um paradoxo chestertoniano em buscar fora a definição do que se deve combater dentro. A `fortaleza` de uma nação não se mede pela sua capacidade de importar rótulos, mas pela sua fibra em enfrentar os desafios com discernimento e ações próprias. Aceitar passivamente que uma potência estrangeira determine a natureza de um problema interno, e as ferramentas para combatê-lo, é abrir mão da autonomia. Isso não significa recusar `cooperação internacional` em lavagem de dinheiro ou contrabando de armas, que é sempre bem-vinda, mas sim insistir que a estratégia e a definição primária permanecem sob a `autoridade legítima` do Estado brasileiro. O risco de que a classificação dificulte investimentos ou sirva de pretexto para intervenções é uma preocupação real, e não pode ser descartada com leviandade.
A instrumentalização política dessa medida, de ambos os lados, serve apenas para desviar a atenção de soluções concretas e duradouras. Enquanto uns celebram um golpe midiático, e outros se prendem à retórica da interferência, a complexa estrutura do PCC e do CV continua a exigir um enfrentamento sistêmico: inteligência aprimorada, fortalecimento das instituições de segurança, combate à corrupção nas fronteiras e no sistema prisional, e políticas sociais que ofereçam alternativas à marginalidade. O problema não é o rótulo, mas a capacidade real de desmantelar redes que exploram a pobreza e a ausência do Estado.
É preciso que o Brasil defina seus próprios demônios e forje suas próprias armas. A segurança do país e a `paz social` que almejamos não serão construídas pela anuência a classificações externas, nem pela exploração política da miséria alheia, mas pela `justiça` de suas leis e pela `fortaleza` de suas instituições, erguidas sobre os próprios fundamentos da nação.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.