A trama que envolve a segurança nacional e a política eleitoral, como agora se desenha no Brasil e nos Estados Unidos, é um nó górdio que a retórica partidária prefere cortar a desatar. Os fatos são claros: o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), facções criminosas com tentáculos que se estendem muito além das fronteiras brasileiras, foram designados como organizações terroristas estrangeiras pela gestão Trump. Paralelamente, um senador brasileiro pré-candidato à Presidência celebra a decisão, afirmando ter atuado por ela em Washington, enquanto o governo de seu país denuncia a ação como uma interferência eleitoral orquestrada. Entre a ameaça real e a manobra política, a verdade corre o risco de ser a primeira vítima.
O perigo representado pelo CV e pelo PCC é uma rocha inegável no cenário da segurança hemisférica. Seu alcance transnacional, sua capacidade financeira e a brutalidade de suas ações não se encaixam em uma categoria menor que a de um desafio à ordem pública e à estabilidade. Atribuir a designação americana meramente a um estratagema eleitoral, como parte do governo brasileiro sugere, é, no mínimo, um reducionismo que ignora a gravidade intrínseca da ameaça. Seria preciso uma dose de ingenuidade, ou talvez de cálculo político, para desconsiderar que tais grupos, por sua natureza, podem de fato preencher os critérios objetivos de organizações terroristas, conforme as classificações internacionais. É um ato de veracidade reconhecer o inimigo em sua plenitude, sem diminuir seu poder para servir a uma narrativa conveniente.
Contudo, a politização de uma questão tão séria não pode ser ignorada. É legítima a preocupação com a simetria das relações internacionais e com a possibilidade de que o prestígio de uma ação de política externa de uma superpotência seja instrumentalizado por atores domésticos para fins eleitorais. A diplomacia, para ser justa e eficaz, deve ser conduzida pelos canais formais e pautada pelos interesses permanentes da nação, e não por lobby de ocasião. A própria nota do governo brasileiro, ao criticar “traidores que tentam confundir esses conceitos”, revela uma compreensível indignação com a aparente inversão de prioridades. O princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja, nos lembra que as comunidades maiores não devem absorver ou instrumentalizar as responsabilidades das menores, um lembrete valioso tanto para a ação externa quanto para a condução da política interna.
A questão central, portanto, não é se CV e PCC representam uma ameaça grave – isso é inquestionável –, mas se a resposta a essa ameaça, seja ela interna ou externa, está sendo guiada pela justiça e pela honestidade intelectual, ou se se tornou um mero peão no tabuleiro eleitoral. O governo brasileiro tem o dever de combater o crime organizado e, se há falhas em sua estratégia nacional, deve buscar a cooperação internacional de forma proativa e soberana, e não reagir apenas quando ações de terceiros são percebidas como politicagem. Da mesma forma, aqueles que buscaram a designação americana deveriam fazê-lo com um compromisso sério com a segurança nacional, e não como um atalho para capitalizar politicamente.
Nesse emaranhado de interesses e acusações, a humildade é uma virtude essencial. Ela nos recorda a complexidade das motivações humanas e a imprevisibilidade dos cenários políticos, impedindo-nos de cravar intenções absolutas com base apenas em conveniências temporais. Como Chesterton advertiria, é uma forma de loucura lógica reduzir realidades multifacetadas a uma única causa ideológica, seja ela “interferência eleitoral” ou “salvador da pátria”. A sanidade reside em perscrutar a neblina dos discursos para discernir a estrutura da realidade por trás dela: a existência contundente do crime organizado e a necessidade de uma resposta à altura, que não se deixe desviar pela partidarização.
O combate a esses grupos exige uma clareza moral que transcenda o calendário eleitoral e as conveniências partidárias. Não se trata de uma escolha entre defender a soberania ou combater o crime, mas de um imperativo de justiça que abarque ambos os desígnios. A resposta genuína à ameaça do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital virá de uma estratégia nacional robusta, que utilize todos os mecanismos lícitos de cooperação internacional, mas sempre ancorada na dignidade e na autonomia do povo brasileiro, evitando a tentação de usar uma segurança tão vital como mera moeda de troca na política. A segurança do povo não é um trunfo eleitoral, mas o fundamento da paz social.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.