A justa nomeação das coisas, longe de ser um mero exercício semântico, é o primeiro passo para a inteligência da realidade e a reta ordenação da ação. Quando a linguagem se entorta, seja pela pressa política, seja pela ideologia, o combate ao mal também perde seu rumo. Os Estados Unidos, ao classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, lançaram uma pedra no lago sereno – ou talvez já turvo – da diplomacia brasileira, gerando uma disputa cujo ruído político ameaça ofuscar a real gravidade do problema.
Os fatos são claros: Washington decidiu rotular as facções como terroristas, e a resposta imediata no Brasil foi uma instrumentalização política. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro e seus aliados tentam capitalizar a medida para desgastar o governo Lula, este último resiste à classificação, invocando a soberania nacional e os potenciais impactos diplomáticos. Há, sem dúvida, uma preocupação legítima com a ingerência em assuntos internos e a manutenção da autonomia da política externa brasileira. Nenhum Estado deseja ver suas organizações domésticas definidas por um poder estrangeiro sem seu consentimento.
Entretanto, é preciso ir além da superfície da disputa. A Doutrina Social da Igreja, com São Tomás de Aquino como seu farol perene, nos ensina a distinguir a substância dos acidentes, a causa final das causas instrumentais. Organizações como o PCC e o CV, independentemente do rótulo que se lhes atribua, operam com uma brutalidade sistemática, impõem um controle territorial e social por meio da violência, desafiam a autoridade legítima do Estado e desestabilizam a ordem moral pública. Suas ações, embora frequentemente motivadas pelo lucro, assumem contornos que, para as populações afligidas, pouco se distinguem do terror. O que importa, primariamente, não é a exata categoria jurídica, mas a defesa do povo contra a opressão. Pio XII, em sua clareza sobre o “povo versus massa”, nos lembra que a tarefa essencial do Estado é proteger seus cidadãos e assegurar uma ordem onde a vida comum possa florescer, e não apenas preservar uma formalidade jurídica.
A recusa brasileira, ainda que baseada na defesa da soberania, deve ser honesta em suas motivações. Se o crime organizado transnacional se comporta como um poder paralelo, impondo terror, subvertendo instituições e vitimando milhares, a mera invocação de um princípio jurídico não pode se tornar um escudo para a ineficácia. A veracidade exige que o Estado brasileiro enfrente a realidade nua e crua da ameaça, e a justiça clama por todas as ferramentas legítimas para desmantelar essas redes de morte. Ignorar uma ferramenta de combate sob a justificativa de que ela parte de um adversário político ou de uma nação que busca seus próprios interesses pode ser uma imprudência que custa a vida de inocentes.
Chesterton, com seu paradoxo habitual, diria que a modernidade muitas vezes complica o simples e simplifica o complexo. Aqui, tenta-se simplificar a natureza de grupos criminosos pela atribuição de um rótulo que pode ser inadequado em certas especificidades jurídicas, ao mesmo tempo em que se complica a ação necessária por uma querela sobre quem nomeia o inimigo. A sanidade nos manda olhar para os feitos concretos dos criminosos, para a extensão de seu poder nefasto, e perguntar: o que impede o Estado, em sua sagrada função de zelar pela vida de seus filhos, de usar todos os instrumentos lícitos e eficazes que a cooperação internacional possa oferecer?
A verdadeira dignidade de uma nação não reside na afirmação rígida de sua soberania contra qualquer percepção externa, mas na capacidade de proteger a vida e a liberdade de seu povo contra ameaças reais, internas e transnacionais. O desafio não é técnico-jurídico-semântico, mas moral e existencial. É preciso discernimento para separar o ruído da política da urgência da ação e, com a necessária firmeza, combater o crime organizado sem ceder à tentação de usar princípios nobres para justificar a inação. A lei e a diplomacia são meios; o fim é a paz justa para o povo.
O Brasil precisa de uma estratégia robusta e transparente, que vá além das disputas de palanque. A classificação americana, vista com a frieza do espírito, deve ser menos um pretexto para o bate-boca político e mais um espelho que reflete uma realidade inegável: nosso território é palco para uma violência organizada que exige uma resposta à altura, com ou sem a chancela de Washington. A responsabilidade primeira é nossa, e a ela devemos responder com coragem e todas as ferramentas de justiça, em vez de nos perdermos na discussão sobre quem tem o direito de dar o nome à barbárie.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.