A imagem que se tem de um líder autoritário é muitas vezes a de uma figura inabalável, blindada em seu poder, ditando destinos de um trono inquestionável. No entanto, a análise do cientista político Marcel Dirsus desvela um paradoxo cruel: muitos tiranos, ao personalizarem o poder e se cercarem de uma corte de bajuladores, pavimentam o caminho da própria queda. Eles, de fato, cavam sua própria cova, não por fraqueza externa, mas por uma enfermidade interna à alma do governo.
A tentação de ouvir apenas ecos da própria voz é um vício capital que corrói a capacidade de governar com retidão. Como Dirsus assinala, as reuniões de gabinete de certos líderes parecem mais Pyongyang que Washington, imitando o ambiente tóxico onde a verdade é sufocada. A virtude da veracidade exige que um líder, se não em público, ao menos em privado, tenha a coragem de ser confrontado com os fatos. O vício da lisonja impede essa troca vital, levando a erros catastróficos que prejudicam não só a nação, mas também o próprio poder. São Tomás de Aquino nos ensina que o bem comum é a ordem dos bens que permite a cada um prosperar; e tal ordem é inviável onde a deliberação é viciada pela falsidade. Pio XII já advertia sobre os perigos de reduzir o “povo” a uma “massa” manipulável, uma concha vazia onde a voz do líder é a única melodia.
Contudo, a reflexão não pode ser ingênua. A objeção contrária legitimamente questiona se a “cova” é assim tão inevitável. Regimes como o da China ou as monarquias do Golfo persistem por décadas, combinando crescimento econômico com repressão sofisticada. A lealdade aos líderes autoritários não é puramente transacional; pode ser cimentada por ideologia, nacionalismo ou o medo. A tecnologia de vigilância, antes vista como arma da libertação, tornou-se, nas mãos de ditaduras, uma ferramenta de controle inigualável. Há uma diferença crucial entre a Líbia de Gaddafi, uma estrutura frágil que ruiu, e um sistema como o chinês, que possui instituições funcionais, ainda que subjugadas por um poder personalizado.
A Igreja, através de sua Doutrina Social, sempre distinguiu a autoridade legítima, que serve ao bem comum, da tirania, que se serve do povo. Mesmo que um regime autoritário consiga adiar sua queda por meio da força e da propaganda, sua estabilidade é sempre precária, pois é construída sobre a injustiça e a negação da humildade política. O que parece ser resiliência pode ser, na verdade, a rigidez de um edifício que, ao isolar-se de qualquer crítica construtiva e de qualquer correção, tornou-se incapaz de adaptação genuína e se nutre de uma sanidade ilusória. Chesterton, em seu paradoxo habitual, nos lembraria que o homem que tenta controlar tudo, acaba por não controlar nem a si mesmo, sendo o primeiro a cair na armadilha que armou para os outros. A verdade, ainda que silenciada, não deixa de existir, e a ausência dela corrói o alicerce mais profundo da convivência humana.
A grande lição, portanto, não é esperar passivamente pela queda do tirano, mas edificar um governo que reconheça a ordem moral pública como seu fundamento. A verdadeira força de um líder não reside em sua capacidade de suprimir vozes, mas em sua disposição para discernir a verdade, mesmo que impopular. Isso exige a fortaleza de enfrentar os próprios limites e a justiça de governar para o bem de todos, cultivando um corpo social vibrante, onde a subsidiariedade e a livre associação floresçam. O apoio a um líder não deve ser uma barganha utilitária de reeleição, mas um assentimento ao seu serviço desinteressado pelo bem da cidade.
A cova que o tirano cava para si não é apenas um lugar de derrota política, mas a solidão moral que decorre de uma vida pública sem raízes na verdade e na caridade. Um governo que se fecha ao dissenso honesto, que transforma o debate em adulação, e que vê o cidadão como massa a ser moldada, e não como pessoa a ser servida, condena-se a uma existência efêmera e sem substância. A pedra de toque de qualquer poder reside na sua capacidade de sustentar o povo na busca pela verdade, sem a qual nenhuma liberdade é duradoura e nenhum governo é plenamente legítimo.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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