A promessa de paz no Oriente Médio, um frágil galho de oliveira estendido sobre um abismo de chamas, acaba de ser cinicamente rejeitada. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não apenas classificou as condições iranianas para o fim do conflito como “totalmente inaceitáveis”, mas acusou a república islâmica de “rir” de seu país, prometendo desfechos militares em “duas semanas”. A resposta iraniana não demorou: o fim da “moderação” e uma advertência de retaliação “forte e decisiva” a qualquer ataque nas águas do Golfo. O que resta, portanto, de um cessar-fogo que, em menos de um mês, se revela uma pausa meramente nominal, enquanto bombardeios israelenses ainda ceifam vidas no Líbano?
Essa escalada retórica, que logo encontra eco em ações – drones atingindo cargueiros no Golfo, acusações de ataques contra os Emirados Árabes Unidos e Kuwait –, expõe uma perigosa dança de sombras e ameaças. A cada declaração maximalista, a cada movimento de força, o espaço para a diplomacia sincera diminui. Não se trata de personalidades irascíveis meramente, mas de uma lógica institucional que parece conduzir os atores a um beco sem saída. A comunicação, outrora via para o entendimento, converte-se em arma de intimidação e propaganda, distante da “comunicação responsável” que Pio XII já urgia em tempos de massificação.
A verdadeira tragédia reside no impacto devastador sobre as populações civis da região, já exauridas por milhares de mortos, e na desestabilização contínua da economia global, refém das ameaças ao Estreito de Ormuz. O risco de um erro de cálculo é imenso, a ponto de se vislumbrar a proliferação de um conflito que engolfaria outros atores, arrastando-os para um abismo de imprevisibilidade. É uma falha grave contra a justiça mais básica, que demanda a proteção da vida e a busca incessante pela paz, e uma afronta à veracidade, quando as condições de um acordo são veladas ao público e as intenções reais, disfarçadas de bravata.
Quando o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, declara que a guerra “não terminou” e aponta para o material nuclear iraniano, a temperatura do conflito se eleva ainda mais. As “novas diretrizes e instruções” recebidas pelo chefe militar iraniano Ali Abdollahi são, neste quadro, um sinal alarmante de que a preparação para o confronto direto está em curso, apesar das tentativas francesas de articular uma “missão de segurança combinada com o Irã” no Estreito de Ormuz – um esforço que parece ser visto com desconfiança e até ameaça por Teerã. A China, grande compradora de petróleo iraniano, tenta equilibrar-se entre seus interesses econômicos e a pressão americana, mas sua influência tem limites diante da intransigência de ambos os lados.
A Igreja nos ensina que a paz não é a mera ausência de guerra, mas a “tranquilidade da ordem”, fruto da justiça. Hoje, observa-se o oposto: a prevalência da desordem e da injustiça, alimentadas por uma retórica que nega qualquer legitimidade ao adversário e esvazia o diálogo de seu verdadeiro propósito. Não se trata de endossar as condições iranianas ou americanas, cujos detalhes são convenientemente opacos, mas de denunciar a ausência de uma vontade genuína de construir pontes, preferindo armar-se com muros. A ameaça de “derrotar” uma nação em duas semanas, ou a promessa de uma “resposta decisiva” a qualquer provocação, são sintomas de uma soberba que despreza o sofrimento humano em nome de interesses estratégicos.
É preciso recordar que a dignidade da pessoa humana não pode ser sacrificada no altar de jogos geopolíticos. A busca por um “semáforo doutrinal” que guie as nações para a paz exige mais do que cálculos de poder; exige um reconhecimento mútuo, ainda que difícil, e uma disposição autêntica para o sacrifício em nome de um bem maior. Sem essa humildade e essa honestidade radical, a tragédia não será meramente uma possibilidade, mas uma conclusão dolorosa e inescapável, paga com o sangue dos inocentes e a desestabilização de todo um povo.
Fonte original: ISTOÉ Independente
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