Um Congresso Mineiro de Municípios, por sua própria natureza e vocação, deveria ser o solo fértil para as sementes da boa gestão local, o palco da troca de experiências que fortalecem as comunidades e a arena para o debate sobre os desafios que afligem a vida comum em cada recanto do Estado. É um fórum onde os alicerces da cidade se revisam e se fortificam, longe das ventanias eleitorais que agitam o panteão federal. Contudo, em Belo Horizonte, presenciou-se um desvio de rota, uma instrumentalização de um espaço eminentemente municipalista para o lançamento de uma pré-campanha ao Senado, com o deputado federal Domingos Sávio transformando a ocasião em palanque para duras críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao governo federal.
O deputado, respaldado por lideranças de seu partido, não hesitou em classificar a indicação de seu nome como uma “providência divina”, ao mesmo tempo em que tecia severas censuras à Corte Suprema, acusando-a de ser um “puxadinho político”. A comemoração de supostas “derrotas” do Executivo e a “leitura política” sobre a dosimetria das penas em casos de grande repercussão, como os eventos de 8 de janeiro, completaram o quadro de um discurso que, embora politicamente estratégico, pisa na linha tênue entre a legítima fiscalização e a deslegitimação das instituições.
Aqui, a veracidade do debate público é posta à prova. A fé nos ensina que a Providência Divina atua na história, mas de um modo que respeita a liberdade e a responsabilidade humanas, não como um endosso automático a ambições políticas ou como um salvo-conduto para retóricas que simplificam o complexo. Dizer que o próprio percurso eleitoral é uma “providência divina” enquanto se adjetiva o mais alto tribunal da nação como um “puxadinho político” é o tipo de paradoxo que exige clareza e honestidade intelectual, e não a mera conveniência do discurso. Como ensinava Pio XII, a comunicação pública, especialmente quando envolve a ordem moral e a estrutura de um país, exige responsabilidade e apreço pela verdade dos fatos, para não confundir o povo com a massa sugestionável.
Ainda, o emprego de um congresso municipalista como trampolim para embates políticos nacionais demanda a virtude da temperança. A Doutrina Social da Igreja sempre defendeu a vitalidade dos corpos intermediários e a autonomia das esferas de atuação social e política. Quando um fórum dedicado aos 853 municípios de Minas Gerais é usado para as grandes questões de Washington e Brasília, há um desequilíbrio, um excesso que desvia a atenção das necessidades mais prementes e concretas dos prefeitos e vereadores ali reunidos. É preciso discernir os locais e os momentos adequados para cada tipo de debate, evitando que o espetáculo da política nacional engula a substância da governança local.
A legítima crítica a qualquer poder constituído é um pilar da democracia e da vida cívica. Entretanto, quando esta crítica se torna uma ferramenta de deslegitimação generalizada, a justiça institucional é ferida. A afirmação de que o STF age como um “puxadinho” reduz a complexidade do Judiciário a uma caricatura, ignorando os debates internos, as diversidades de voto e a própria salvaguarda constitucional que a Corte deve representar. Tais simplificações não fortalecem a fiscalização, mas corroem a confiança nos pilares da República, obscurecendo a necessária discussão sobre reformas e aperfeiçoamentos com a fumaça da polarização.
Não se pode edificar uma ordem social justa sobre alicerces movediços de desconfiança generalizada ou sobre a retórica de que a “providência divina” dispensa a ponderação humana. A verdadeira arte da política, sob a luz da fé, não é a de destruir alicerces para construir palanques, mas a de fortificar as instituições para que a vida comum floresça.
Fonte original: DiviNews.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.