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Moro e Flávio Bolsonaro: Conveniência Põe o Passado à Prova

A união de Sergio Moro e Flávio Bolsonaro em Curitiba desafia o passado. Analisamos como a conveniência eleitoral reescreve a história e instrumentaliza o combate ao crime organizado no Brasil.

🟢 Análise

Certos palcos políticos não se contentam com a encenação do presente; buscam a reescrita do passado, com novos figurinos e roteiros que convenientemente apagam dramas e discórdias. Foi o que se viu em Curitiba, onde o senador Sergio Moro, ao lançar sua pré-candidatura ao Governo do Paraná, recebia ao lado um Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, que vestia a desafiadora camiseta: “Curitiba prendeu. Brasília soltou.” O elogio à suposta “ação paralela” de Flávio junto ao governo norte-americano para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, e a acusação direta ao presidente Lula de “lobby para facções”, compunham uma cena de unidade que, para quem acompanha os anais da política recente, soava mais como um auto de fé eleitoral do que uma convergência genuína de princípios.

É legítima a preocupação com o combate ao crime organizado e a necessidade de articulação internacional para frear ameaças que ignoram fronteiras. A ação contra facções como o PCC e o Comando Vermelho é um imperativo de segurança pública e de ordem. Contudo, essa bandeira não pode servir de biombo para a fabricação de narrativas convenientes, que distorcem fatos e ignoram a história recente dos próprios protagonistas. A verdade, no foro público, não é um adereço descartável; é o oxigênio sem o qual a vida comum sufoca.

Quando um candidato exalta a “coragem” de um aliado por ter “convencido” um governo estrangeiro, e simultaneamente acusa o presidente da República de “lamber a bota” de um ex-presidente americano para “defender marginais”, sem qualquer prova minimamente verificável, a veracidade é a primeira vítima. O público, ensinava Pio XII, não é uma massa amorfa a ser manipulada por slogans e acusações sem lastro, mas um povo dotado de razão, que exige fatos e discernimento para formar um juízo reto. A troca de farpas e o ataque gratuito, em vez de elevar o debate sobre temas tão graves, o aviltam, transformando a seriedade da questão criminal em mero palco para a disputa miúda.

A cena de união em Curitiba se torna ainda mais paradoxal quando posta em perspectiva. Há poucos anos, o mesmo Sergio Moro acusava Jair Bolsonaro, pai de Flávio, de tentar interferir na Polícia Federal. Por sua vez, Bolsonaro rebatia, alegando que Moro negociava uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Moro, mais tarde, criticou a família Bolsonaro por acusações de “rachadinha” contra Flávio. Esta não é a dança da política onde opiniões mudam e alianças se formam; é a reescrita de um passado recente com borracha ideológica, onde graves denúncias são convenientemente esquecidas em nome de uma nova conveniência eleitoral. Uma real magnanimidade exigiria a coragem de reconhecer os próprios erros e as tensões passadas, e não a simples inversão de um roteiro.

A instrumentalização da luta contra o crime e a corrupção para fins meramente eleitorais, sem o compromisso com a verdade e a integridade, corroi a fé nas instituições. Como apontaria Chesterton, a sanidade política reside em reconhecer a realidade em sua complexidade, não na loucura lógica de ideologias que deformam o passado para justificar o presente. Quando a conveniência política dita o que é verdade e o que é mentira, a ordem justa se desfaz, pois a confiança é a moeda mais valiosa do pacto social.

A dignidade da vida pública, afinal, depende de que seus atores ajam com a veracidade devida aos cidadãos e com a magnanimidade que eleva o debate para o verdadeiro bem da cidade. A plateia, ao fim e ao cabo, merece mais do que um roteiro alterado; merece a realidade que edifica a vida pública e a esperança de uma ordem justa.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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