O leito de um hospital, para uma mãe que carrega a vida em seus braços, deveria ser um refúgio, um porto seguro contra a fúria da doença. Mas para Luana Quiaro, que perdeu sua pequena Mira de apenas quatro meses no Hospital da Criança em São Luís, esse mesmo leito virou um palco de desespero e um eco de negligência. A versão da mãe, que denuncia demora no atendimento, desidratação e uma espera agonizante por cuidados, confronta a nota da Secretaria Municipal de Saúde, que afirma ter seguido “todos os protocolos assistenciais estabelecidos” e prestado “atendimento imediato”. No centro dessa dor lancinante e dessas versões conflitantes, jaz a vida de uma criança e a confiança de uma comunidade no sistema que deveria protegê-la.
É preciso reconhecer a complexidade do cenário. A bronquiolite grave em bebês, como bem apontam os argumentos de defesa do sistema, é uma condição clínica que pode evoluir com uma rapidez e virulência assustadoras para sepse e, infelizmente, para o óbito, mesmo sob os mais diligentes cuidados. Não é um “resfriado forte”, mas um ataque implacável a um organismo ainda em formação. A distância de Bacabal a São Luís e a fragilidade inerente a uma criança de quatro meses já impõem desafios imensos ao prognóstico. Contudo, essa dureza da realidade médica não pode jamais apagar a percepção de desamparo e a alegação de falha que se gravam na alma de uma mãe que viu sua filha se esvair. O “cada minuto conta” de Luana não é retórica, é a experiência visceral de quem sente o tempo fugir entre os dedos.
Aqui, o Polemista Católico se vê obrigado a invocar a mais fundamental das virtudes políticas e morais: a Justiça. Não uma justiça revanchista, mas aquela que busca a verdade devida à família, aos profissionais e à própria ordem pública. Conforme a Doutrina Social da Igreja, o Estado, através de seus serviços de saúde, tem o grave dever de zelar pela ordem moral pública e pela vida de seu povo — não de uma massa indistinta, mas de indivíduos concretos, de famílias que dependem de sua estrutura. As alegações de negligência não podem ser respondidas apenas com a frieza de “protocolos seguidos”. É imperativo que se apresente uma cronologia detalhada e verificável do atendimento da bebê Mira, desde sua chegada, para que a Veracidade dos fatos prevaleça sobre a névoa da burocracia ou da comoção.
A sanidade, para Chesterton, muitas vezes consiste em não sucumbir à “loucura lógica” de um sistema que, na tentativa de ser eficiente, acaba por desumanizar. Quando a “lógica” dos protocolos se choca com a experiência de que “ninguém olhou para ela”, há uma fissura no contrato social e moral que une o serviço público ao cidadão. É a Caridade, a reta ordenação do amor, que nos lembra que a atenção ao vulnerável não é um item opcional, mas o cerne de todo cuidado. O sistema de saúde, por mais sobrecarregado que esteja, precisa de mecanismos que garantam a comunicação humana, a empatia e a priorização daquele que mais sofre, sem que a percepção de espera ou descaso seja a memória final de um atendimento. Não se trata apenas de tratar a doença, mas de cuidar da pessoa em sua angústia.
É hora de um accountability radical, como sugere nosso repertório, que vá além da busca por um bode expiatório. Que se investiguem não apenas as ações individuais, mas as estruturas e processos do Hospital da Criança. Houve pluralismo regulado na gestão de pacientes em casos graves? Os conselhos escola-família-comunidade – ou seus equivalentes no setor de saúde – estão funcionando para garantir transparência e participação? Há avaliação de impacto para que tragédias como a de Mira sirvam para aperfeiçoar o sistema, e não apenas para gerar manchetes? A sociedade deve exigir que a continuidade institucional não seja a perpetuação de falhas, mas um compromisso constante com a excelência do cuidado.
A morte da bebê Mira não é apenas uma estatística lamentável, mas um grito que interpela a consciência pública. É um convite amargo para que o sistema de saúde reavalie sua própria alma, para que a primazia da vida, da verdade e da justiça se imponha sobre a aridez dos relatórios e a defesa institucional. A verdadeira medida de uma civilização se revela não na sofisticação de seus protocolos, mas na delicadeza com que abraça a vida mais frágil e na tenacidade com que busca a verdade em meio à dor.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.