Uma gestão que se inicia é como um arquiteto lançando a primeira pedra de uma grande obra. A euforia do começo, o aceno de projetos ambiciosos e a velocidade com que se erguem as primeiras paredes podem impressionar, e muito. No Acre, a governadora Mailza Assis apresenta um balanço de 30 dias que, em números brutos, pinta um quadro de intensa atividade: centenas de servidores contratados, licenças ambientais agilizadas, escolas revitalizadas, programas sociais de impacto, e uma série de obras e mutirões que prometem “fortalecer as pessoas” e impulsionar a economia. É justo reconhecer a energia e o propósito que motivam tais iniciativas, especialmente a atenção a necessidades básicas como saúde, educação e segurança, e a intenção de valorizar o empreendedor local, como no Programa Estadual de Aquisição de Alimentos (PEAA), que beneficia agricultores familiares.
Contudo, a pressa em celebrar um “início robusto e transformador” em tão curto espaço de tempo pede um olhar mais atento aos alicerces que estão sendo lançados. A política não se mede apenas pela volumetria das “entregas” ou pela enxurrada de investimentos anunciados, mas pela solidez e durabilidade das estruturas que edificam a vida comum. A Doutrina Social da Igreja nos lembra, desde Leão XIII em sua Rerum Novarum, que o trabalho humano possui uma dignidade intrínseca que exige mais do que meras oportunidades transitórias. Não se trata apenas de “gerar empregos”, mas de garantir “segurança de um emprego”, como bem citado pela própria governadora. Aqui, reside um ponto de tensão que não pode ser ignorado.
O fato de 308 dos 357 novos servidores contratados nos primeiros 30 dias serem temporários, enquanto apenas 49 são efetivos, levanta uma preocupação legítima sobre a precarização do serviço público. Embora a necessidade de preencher lacunas emergenciais seja compreensível, a preponderância de vínculos precários, em vez de reforços estruturais permanentes, pode minar a própria promessa de “fortalecer as pessoas”. A estabilidade no emprego é um pilar da justiça social, um direito do trabalhador que permite o planejamento familiar, a formação continuada e o desenvolvimento de um senso de pertencimento e responsabilidade na comunidade. Pio XI, em Quadragesimo Anno, sublinhava a importância da ordem profissional e da estabilidade como elementos essenciais para a justiça nas relações de trabalho, um contraponto à lógica de mercado puramente utilitarista.
É preciso discernir entre a genuína atenção às necessidades do povo e a comunicação que beira a propaganda, usando o aparato estatal para construir uma imagem de sucesso imediato. A nobreza de levar auxílio humanitário às vítimas das cheias, de reformar hospitais e escolas, e de incentivar a produção local é inquestionável. Mas a veracidade na gestão pública exige mais do que a contabilidade de bens entregues; requer transparência sobre a origem e a sustentabilidade desses investimentos e, sobretudo, um compromisso com o impacto real e duradouro sobre a vida dos cidadãos, e não apenas sobre os gráficos de desempenho de curto prazo. Quando a governadora fala em “cumprir prazos, mas sempre lembrando que… existe uma leitura que precisa ser feita com humanidade”, ela aponta para a bússola correta. No entanto, a humanidade requer solidez, não apenas efemérides.
A preocupação não é com a ausência de intenção, mas com a materialização concreta e justa dessas intenções. Programas como o CNH Social, que já existia e agora amplia suas vagas, inclusive para mulheres vítimas de violência, são louváveis pela caridade e inclusão que promovem. O incentivo aos agricultores familiares pelo PEAA, comprando diretamente sua produção, fortalece corpos intermediários e a economia local, em consonância com o princípio da subsidiariedade. Estes são exemplos de ações que constroem, de baixo para cima, a dignidade do povo.
A diferença entre um governo que apenas entrega números e um que verdadeiramente constrói reside na qualidade dos alicerces. Não basta pavimentar ruas; é preciso garantir que as famílias que nelas vivem tenham segurança, emprego estável e um horizonte de esperança para seus filhos, sustentado por serviços públicos de excelência e por uma administração que valoriza o servidor não como peça descartável, mas como colaborador essencial. O desafio dos governantes não é o de pintar um quadro perfeito em 30 dias, mas o de edificar uma casa que resista às intempéries, com a justiça como viga mestra e a dignidade do trabalho como sua argamassa.
A verdadeira transformação começa quando a pressa da autopromoção cede lugar à paciência da construção, onde a dignidade de cada trabalhador é o pilar mais visível da vida social.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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