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Lula, Bolsonaro e o Crime Organizado: Além da Retórica

A acusação de ‘traição à pátria’ entre Lula e Flávio Bolsonaro desvia o foco do real combate ao crime organizado transnacional. Analisamos a necessidade de soberania ativa e cooperação internacional eficaz.

🟢 Análise

Quando a sombra de um inimigo público se projeta no palco da disputa eleitoral, a primeira vítima costuma ser a clareza, e a nação, seu refém. A decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas, mais que um ato diplomático, revelou-se um estopim para uma contenda política doméstica de contornos alarmantes. O presidente Lula, ao acusar o senador Flávio Bolsonaro de “trair a pátria” por supostamente ter pedido a Trump essa intervenção, enveredou por um caminho de retórica que, embora possa render dividendos eleitorais, turva a grave questão que nos ocupa: o combate ao crime organizado transnacional e a salvaguarda da soberania brasileira.

A acusação de “traição à pátria” não é leve; ela evoca o vilipêndio máximo de um cidadão contra sua própria comunidade. Contudo, em temas de tamanha seriedade, a veracidade não pode ceder lugar à mera conveniência política. É preciso distinguir entre o lobby legítimo de um parlamentar em busca de apoio para uma causa — ainda que impolítico em suas formas e intenções — e um ato concreto de lesa-pátria que comprometa a integração territorial ou a independência do Estado. Reduzir uma complexa decisão de política externa de uma superpotência a uma mera resposta a um pedido partidário pode subestimar a inteligência e os próprios interesses de segurança dos EUA, ao mesmo tempo em que superdimensiona o poder de um agente político individual. Como nos ensina Pio XII, um “povo” é uma entidade orgânica unida pela verdade e pelos valores morais, enquanto a “massa” é facilmente manipulável por paixões e narrativas. A retórica polarizadora nos afasta da coesão necessária para enfrentar adversários reais.

O cerne da questão não repousa na polêmica das intenções, mas na efetividade do combate ao crime. O governo brasileiro insiste que suas leis, como a Lei Antifacção, e seus programas, como o “Brasil contra o Crime Organizado”, são suficientes e soberanos. E de fato, o princípio da subsidiariedade nos recorda que a responsabilidade primeira pelo bem comum reside nas instâncias mais próximas e capazes. É o Brasil que deve zelar por sua ordem interna e enfrentar as facções que corroem suas cidades. No entanto, o crime organizado, por sua própria natureza, transborda fronteiras, move capitais ilícitos e coordena operações em escala global. Nesse cenário, a cooperação internacional robusta, pautada pela justiça e pela soberania, é não apenas desejável, mas imperativa.

A recusa em sequer considerar os potenciais benefícios de uma designação externa, focando apenas na suposta afronta à soberania, pode ser um gesto custoso. Se a classificação americana resultar em um congelamento de ativos ou em uma maior vigilância sobre as operações financeiras globais dessas facções, tal medida, independente de sua origem, poderia, na prática, enfraquecer esses grupos. A defesa da soberania não pode se confundir com um isolacionismo estéril; ela exige a capacidade de discernir quando e como engajar-se em alianças que sirvam ao bem comum nacional, sem ceder à pressão indevida. O ensinamento de Leão XIII sobre a propriedade com função social e a liberdade ordenada nos lembra que as estruturas devem servir ao homem, e não o contrário. A nação deve usar todos os meios lícitos, internos e externos, para defender seus filhos da violência criminosa.

Portanto, em vez de se perder nas minúcias da querela eleitoral, o Brasil precisa de uma postura magnânima e reta. Exige-se das autoridades a veracidade para expor o problema em sua real dimensão, a justiça para aplicar a lei internamente e nas relações internacionais, e a capacidade de discernimento para separar a politiquice da estratégia de Estado. O perigo não está em discutir a classificação de um grupo criminoso, mas em permitir que a cortina de fumaça da disputa partidarista oculte a necessidade de ação concreta.

A verdadeira força de uma nação não se mede pela veemência de suas acusações, mas pela solidez de seus alicerces morais e pela retidão de suas ações, tanto na vigilância doméstica quanto na justa cooperação internacional.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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