A imagem de uma casa desmoronada, com os escombros ainda quentes da violência, não é apenas um cenário de guerra distante; é o testemunho brutal da vida interrompida de uma família brasileira, um grito silencioso que ecoa de Bint Jbeil, no sul do Líbano. Mãe e filho, de nosso sangue e pátria, jazem sob a terra, vítimas de uma lógica que ignora a santidade da vida e a inviolabilidade do lar. Outro filho, sobrevivente ferido, carrega a cicatriz indelével de um mundo em desordem, um lembrete vívido de que a barbárie tem endereço e rosto.
Diante dessa tragédia, o Itamaraty publicou sua nota, buscando navegar as águas turvas da diplomacia internacional. Condenou, sim, “todos os ataques perpetrados […] tanto por parte das forças israelenses quanto do Hezbollah”. Mas a nota não se deteve na simetria. Explicitou a “mais veemente condenação” às “demolições sistemáticas de residências e de outras estruturas civis no sul do Líbano, levadas a efeito, ao longo das últimas semanas, pelas forças israelenses”, e à “persistência do deslocamento forçado de mais de um milhão de libaneses”. Mais ainda, exigiu o cumprimento integral da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU e a “retirada completa das forças israelenses do território libanês”.
É aqui que a controvérsia se adensa. Há quem acuse o governo de cinismo e de uma “manobra sionista”, por não ter nomeado Israel como único responsável pela morte da família e por, aparentemente, equiparar agressor e agredido. De fato, a condenação indistinta pode, por vezes, mascarar uma assimetria gritante de poder e responsabilidade. São Tomás de Aquino nos ensina que a justiça não é cega ao contexto, e a lei natural impõe um dever maior àquele que possui maior poder e capacidade de infligir dano, especialmente quando age em território alheio e contra civis desarmados. Ignorar essa disparidade é uma falha que compromete a integridade de qualquer juízo.
Contudo, a indignação legítima com a morte de inocentes não deve ceder lugar à retórica conspiratória ou ao uso de rótulos ideológicos genéricos que obscurecem o juízo. Chamar a nota de “nojenta” ou “criminosamente sionista”, sem provas concretas de tal conspiração, reduz a complexidade da diplomacia a uma caricatura de intenções ocultas. Isso distorce a veracidade do debate, substituindo o discernimento dos fatos por paixões políticas que, no fundo, servem apenas para alimentar a discórdia, não a justiça. A diplomacia, ainda que imperfeita e sempre sujeita a pressões, opera num campo minado de interesses e obrigações, onde cada palavra é pesada e as consequências de um erro são pagas com vidas.
A verdadeira questão reside na ordem moral pública. A família, como nos lembrava Leão XIII, é anterior ao Estado e, portanto, sua proteção é um dever primário de qualquer autoridade. O assassinato de civis, a destruição sistemática de lares e o deslocamento forçado de milhões de pessoas não são meros incidentes táticos, mas ataques diretos contra a dignidade humana e a paz social. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, advertia contra a despersonalização do sofrimento humano, que transforma indivíduos em estatísticas. A nota do Itamaraty, apesar das tensões de sua formulação e da crítica sobre a simetria, cumpriu o dever de denunciar violações graves e exigir o cumprimento do direito internacional, notadamente as ações das forças israelenses contra a população libanesa.
Não há paz duradoura onde a justiça é silenciada ou onde o sofrimento humano se torna um peão em jogos de poder. A exigência de retirada das forças israelenses do Líbano, a condenação das demolições e o apelo à Resolução 1701 são sinais de uma tentativa de restaurar a ordem. O Brasil, na esteira desses fatos, deve permanecer firme no amparo aos seus cidadãos e na defesa dos princípios de uma ordem justa que transcende as disputas ideológicas. A vida dos inocentes não é moeda de troca, e a soberania de um povo não se curva à força bruta. A cada lar destruído, a cada vida ceifada, a humanidade perde um pedaço de si, e a fronteira entre a civilização e a barbárie se torna mais tênue. O caminho é o da veracidade na denúncia e da justiça na ação, mesmo quando o mundo insiste em vê-lo tortuoso.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.