A justiça, em sua essência mais pura, não conhece calendário político nem se dobra à conveniência dos impérios. Mas quando o braço da lei se estende sobre um incidente de quase trinta anos, mirando um nonagenário em meio a um bloqueio que sufoca um povo, é forçoso perguntar se o que se busca é a retribuição devida ou a mera instrumentalização do direito. Os Estados Unidos formalizam agora uma acusação contra Raúl Castro pelo abate de dois aviões da organização “Irmãos ao Resgate” em 1996, incidente que custou a vida a quatro pessoas, três delas norte-americanas. A gravidade dos fatos é inegável, e o direito das vítimas à reparação moral, intransponível. Contudo, a veracidade de qualquer ação de Estado está atrelada não apenas ao que se declara, mas às circunstâncias e às reais intenções que a revestem.
Naquele fevereiro de 1996, a retórica era áspera. Jatos cubanos derrubaram as aeronaves sobre águas disputadas, alegando legítima defesa contra violações de seu espaço aéreo. Os EUA, por outro lado, denunciaram um ato de terrorismo contra civis desarmados. Vinte e sete anos se passaram, e a acusação ressurge, estrategicamente orquestrada para coincidir com o 20 de maio, data que para Washington marca a independência cubana, mas que Havana interpreta como o início de uma submissão velada. Este timing calculado, permeado pela retórica de “libertação da ilha” e acompanhado de sanções drásticas, como o bloqueio petrolífero, tinge a pretensão de justiça com a tinta espessa da geopolítica.
Não se pode ignorar que, para o Povo Cubano, as acusações e os gestos de força são mais um capítulo de uma longa novela de penúria. As medidas de pressão, em vez de isolar um regime, frequentemente penalizam a “massa” anônima, as famílias que lutam por alimentos, energia e medicamentos, enquanto o jogo de xadrez entre nações se desenrola nos gabinetes. Pio XII nos advertia contra a transformação do povo em massa, sujeito passivo de manipulações e de narrativas forjadas. Quando a lei se torna arma de contenda internacional, a ordem moral pública se desintegra, pois o ideal de uma justiça universal é obscurecido pela conveniência do poder.
A questão, portanto, transcende a mera culpa individual. Embora a responsabilização de líderes por atos de guerra ou violência seja um imperativo moral, a maneira como essa busca se manifesta revela muito sobre quem a promove. A emissão de um mandado de prisão contra um homem de 94 anos, em um contexto de relações diplomáticas inexistentes, aponta para um ato de efeito simbólico mais do que de eficácia prática. A `justiça` não pode ser um pretexto para justificar uma agenda de desestabilização ou para inflamar ainda mais um conflito que já gera sofrimento incalculável. Uma verdadeira busca pela verdade dos fatos, pela retribuição e pela pacificação, pressuporia vias que não passassem pelo unilateralismo e pela imposição.
A integridade das nações, assim como a dos indivíduos, mede-se pela adesão à veracidade, mesmo quando esta expõe fragilidades ou complexidades incômodas. Acusações oportunas, por mais veementes que sejam, perdem a força de seu argumento quando o pano de fundo é uma estratégia de pressão que afeta o cidadão comum. O verdadeiro serviço à justiça e à dignidade da pessoa humana não reside em atos que exacerbam a crise humanitária ou a polarização, mas na construção paciente de pontes, na exigência de transparência e na busca de soluções que considerem a totalidade dos fatos e as consequências para a vida de todos.
Ao final, a história julgará não apenas o que aconteceu nos céus de Cuba em 1996, mas também a motivação por trás da ressurreição tardia daquele incidente. E o veredito será menos sobre a culpa do acusado e mais sobre a honra de quem o acusa, e se esta se dobrou à prudência política em detrimento da `veracidade` e da `justiça` que se proclamam.
Fonte original: Diario de Pernambuco
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.