O Iraque, país de civilizações milenares e cicatrizes recentes, vive mais uma vez o delicado balé entre sua soberania e as sombras que se projetam sobre ela. A formação de um comitê de três dirigentes iraquianos para desarmar setores das Forças de Mobilização Popular (FMP) sob intensa pressão de Washington é mais do que um ato político; é o sintoma de um Estado que se debate para reivindicar o monopólio da força em seu próprio território, um dever essencial de qualquer autoridade legítima. Não se trata aqui de uma mera negociação de fronteiras ou tarifas, mas da própria constituição da vida comum, dilacerada entre lealdades faccionais e a urgência da ordem.
As FMP, surgidas em 2014 para combater o terror do Estado Islâmico com o auxílio do Irã, foram eventualmente incorporadas às Forças Armadas iraquianas. Contudo, essa formalidade não apagou a realidade de um poder paralelo, com facções que operam segundo agendas próprias e, por vezes, desafiam a autoridade central de Bagdá. Nesse vácuo de autoridade plena, a intervenção externa encontra espaço. A demanda dos Estados Unidos pelo desarmamento não é, portanto, uma surpresa, nem desprovida de um pano de fundo histórico carregado. As sanções econômicas e os bombardeios recentes da Força Aérea americana contra posições das FMP – descritos por algumas fontes como o prenúncio de uma “guerra” com o Irã – explicitam a brutalidade da assimetria de poder e a persistente ingerência em um país que ainda tenta se reerguer das ruínas de invasões e ditaduras.
A memória de como figuras como David Petraeus e James Steele atuaram no Iraque pós-2003, cooptando e treinando grupos que se notabilizaram por torturas e assassinatos extrajudiciais, assombra qualquer iniciativa externa que envolva segurança e reestruturação. A legitimidade da pressão norte-americana, em muitos aspectos, está comprometida por um histórico de intervenções que, em nome da “ordem”, semearam desconfiança e instabilidade. Há uma preocupação genuína: o risco de escalada de violência interna, a potencial erosão da soberania iraquiana e a instrumentalização do Iraque como palco de uma rivalidade geopolítica maior entre Washington e Teerã. Tais temores são válidos e exigem uma análise que vá além das simplificações.
No entanto, limitar a questão a uma mera imposição externa seria ignorar uma verdade fundamental. A existência de grupos armados semi-autônomos, com distintas lealdades e fontes de financiamento, é intrinsecamente incompatível com a noção de um Estado-nação coeso e soberano. O próprio fato de Hadi al-Amiri, um dirigente da Organização Badr com fortes laços com o Irã, integrar o comitê de desarmamento, sinaliza que, por trás da pressão externa, há um reconhecimento interno, até mesmo entre os setores mais próximos a Teerã, de que a fragmentação do controle sobre a segurança nacional é insustentável. O governo iraquiano tem um imperativo de justiça para com seu povo: assegurar a paz social e a autoridade única sobre a força, para que a cidade não se torne um campo de batalha permanente entre facções.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem afirmado a família como sociedade primeira e o Estado como garantidor da ordem justa, não como uma massa amorfa sem coesão. Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, sublinha a importância de uma comunidade organizada e de uma autoridade que realmente governe para o bem de todos, e não seja refém de interesses particulares ou grupos de pressão. A verdadeira soberania de uma nação não reside apenas em sua capacidade de resistir a pressões externas, mas, antes de tudo, em sua capacidade de edificar uma ordem interna sólida, onde o Estado exerça, com honestidade e responsabilidade, o monopólio legítimo da violência. A subsidiariedade, nesse contexto, não significa a proliferação de poderes armados independentes, mas o fortalecimento dos corpos intermediários sob a égide de um Estado forte e justo.
O plano de desarmamento das FMP, ainda que impulsionado por uma dinâmica geopolítica complexa e por pressões externas, atende a uma necessidade interna inadiável do Iraque: consolidar a autoridade do Estado. Não se trata de dar “cheque em branco” a interesses estrangeiros, nem de repetir erros do passado, mas de reconhecer que a autodeterminação de um povo se constrói, primeiramente, pela edificação de uma casa própria com fundamentos estáveis. O desafio é gerenciar este processo com a veracidade devida, com respeito aos membros que lutaram contra o terrorismo, oferecendo-lhes integração digna e não meramente aniquilação. A paz duradoura no Iraque passará pela capacidade de seus líderes em tecer um futuro onde a lealdade seja primariamente à nação, e não a milícias ou potências estrangeiras. A soberania real de um povo se manifesta na integridade de seu Estado.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.